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um copo de água
rosas
innersmile
'74

«Custa muito – diz o príncipe Enrico ao Rapaz sem tirar os olhos da chama – elevarmo-nos acima de nós próprios e, desumanamente, observarmo-nos do exterior, isto é, observarmo-nos, não na nossa qualidade de habitantes deste planeta, enterrados até ao pescoço na sociedade dos homens e condicionados por ela, mas como nos poderiam observar os habitantes de um planeta remoto, com o mesmo distanciamento, com a mesma impassível desumanidade. Se conseguíssemos alcançar tal desdobramento, o que é que veríamos? Veríamos que há milhares de homens que, há milénios, vêm sulcando um caminho tão profundo que ninguém consegue sair dele, de tal modo que todos nós, embora nos julguemos livres, não o somos mais do que uma formiga que caminha com outras formigas dentro de uma mesma fila. Aqui, na terra, tudo é idealizado: idealizamos a nossa servidão ao grupo, ao indestrutível caminho, inventando determinadas palavras, venerando-as. Chamamos “bem”, ao caminho que, precisamente por um hábito ancestral, estamos habituados a percorrer e “mal” à terra livre, inexplorada, que se estende à sua volta. O que é a moral senão a idealização da nossa férrea dependência do “caminho”?»
Isto dizia o príncipe Enrico, apressado, e talvez o Rapaz o ouvisse, talvez não. Depois, o príncipe Enrico diz:
«Os nossos gestos são feitos por amor. Se admiramos um quadro, se ouvimos um trecho de música, se bebemos um copo de água, se contemplamos o céu, é por amor. E é pelas intenções que damos ao amor que seremos julgados.»'


- Carlo Coccioli, Fabrizio Lupo (Cotovia)