October 6th, 2003

rosas

notas para viver com a ausência

O Público errou quando, há pouco menos de um mês, decidiu assinalar o dia 11 de Setembro repartindo a capa em duas efemérides: o segundo aniversário do ataque terrorista aos EUA e os trinta anos do golpe militar chileno. Ao fazê-lo, o Público estabeleceu uma espécie de competição, como que admitindo que, entre os dois acontecimentos, não tinha conseguido decidir qual o mais importante. Eu entenderia que o Público tomasse a decisão editorial de escolher qualquer um deles para destaque de primeira página, mas com esta solução, o Público conseguiu o impensável: humilhar as vítimas do tenebroso golpe militar de Pinochet, e ofender a memória dos que trabalhavam num arranha-céus nova-iorquino. Pela simples razão de que não achou que qualquer um deles tinha importância ou dignidade bastante para aparecer sozinho na capa!
Claro que nem me passa pela cabeça que a intenção do jornal fosse fazer qualquer espécie de equilíbrio entre os dois acontecimentos, num ex-aequo ideológico entre a direita e a esquerda, dizendo que, paciência!, têm mesmo de repartir a medalha de ouro do martírio simbólico. Mas o pior é que o efeito dessa decisão foi mesmo uma competição imbecil entre direitistas e esquerdistas, cada um deles a reclamar, de forma absurda, a propriedade do 11 de Setembro para a sua efeméride ideológica. Esta competição foi particularmente visível na blogosfera portuguesa, sobretudo naquele magma de blogs que se descobriram em Julho passado. Achei que as vítimas de Pinochet foram particularmente ofendidas e humilhadas, porque foram aproveitadas por uma série de gente que nem sequer fazia ideia de que choveu em Santiago nesse dia 11 de Setembro de 1973, e que apenas se serviram dos mortos e desaparecidos para expressar o luso anti-americanismo primário.

E porque é que vem isto à baila agora, quase um mês depois? Primeiro porque, na altura, achei toda a polémica sobre qual o 11 de Setembro que deveria ser comemorado, demasiado repugnante para ser comentada. Depois, porque chegou agora aos escaparates, ou pelo menos à estante cá de casa, um livro que, ele sim, homenageia as vítimas da ditadura chilena, sem esquecimento e sem perdão, e sem precisar de, para isso, apoucar as vítimas de qualquer outra tragédia. Falo de Luis Sepúlveda e de O General e o Juiz.
Sepúlveda é um dos meus escritores preferidos, apesar de não o reconhecer, ou até talvez por isso, um vulto maior da literatura dos nossos dias. É um best-seller, e ainda bem, porque sempre me parece mais interessante que venda muito um escritor evocativo e militante, do que toda a panóplia de lights e místicos que enchem as tabelas de vendas.
Cheguei a Sepúlveda via Bruce Chatwin e a Patagónia, mas foi uma daqueles casos de amor ao primeiro parágrafo. Depois de Patagonia Express, li tudo o que encontrei à venda: Mundo do Fim do Mundo, O Velho que Lia Romances de Amor, Nome de Toureiro, e, à medida que foram sendo publicados, Encontro de Amor num País em Guerra, Diário de Um Killer Sentimental, Historia de Una Gaivota y Del Gato Que Le Enseño a Volar (assim mesmo, em ‘chileno’) e As Rosas de Atacama. Atrás de um título patagónico, até encomendei Full Circle – A South-Amerinan Journey, só para descobrir que afinal era a tradução de Patagonia Express.

Quanto a O General e o Juiz, é uma recolha de textos de opinião que Sepúlveda publicou em vários jornais no período que se seguiu à detenção de Augusto Pinochet em Inglaterra e que, como movimento de opinião, visavam impedir que o ditador fosse “devolvido” ao Chile e à impunidade. É, como não podia deixar de ser, um livro empenhado e militante, em que a literatura cede muitas vezes o lugar ao manifesto e à denúncia. Mas Sepúlveda nunca consegue andar longe de escrever bem, de forma emocional e evocativa, contando histórias de gente de verdade, com nomes como Oscar Lagos Ríos ou Horacio Cepeda Marincovic, cuja lembrança e homenagem é talvez a única forma de lutar contra todos os esbirros e todos os compromissos que transformaram o Chile num “país sem memória”!
rosas

anger management + weekend report

Na sexta-feira fui, pela primeira vez, ao Centro de Artes e Espectáculos na Figueira da Foz, e fiquei impressionado, nomeadamente com o auditório. Só não percebo é porque é que não aceitam reservas por telefone feitas no próprio dia! Há ainda, em algumas casas promotoras de espectáculos, uma cautela muito grande em relação às reservas, como se desconfiassem da má-fé de quem telefona a reservar bilhetes. Suponho que a percentagem de reservas canceladas ou não levantadas, há-de ser muito baixa, normalmente quem se dá ao trabalho de telefonar está mesmo interessado em assistir ao espectáculo; e, depois, basta garantir as reservas até certo limite temporal, a partir do qual os bilhetes são postos à venda, caso haja muito procura ou a lotação esteja esgotada. No caso de a lotação não esgotar, não faz diferença à casa que a reserva seja ou não levantada, não resulta daí qualquer prejuízo objectivo. Para mais, a bilheteira do CAE está encerrada entre as 18 e as 20 horas, o que não dá assim muito jeito. Bom, mas tirando isto, nada a dizer do espaço e do funcionamento.
Desnecessário tinha sido mesmo darem àquilo o nome do Santana Lopes. É que não há mesmo razão válida nenhuma para isso, a não ser uma trip de ego e de auto-promoção de gosto mais que duvidoso. Mas enfim, na Republica das Bananas tudo é possível e aceitável socialmente...

A ida ao CAE foi para assistir a ‘A Dama das Camélias’, pela CNB. Não sou grande entusiasta do ballet clássico, acho-o pouco estimulante, mas pareceu-me ser uma boa produção, desde a coreografia à execução, passando pelos cenários e figurinos.

No fim de semana, vi também Anger Management, com o Jack Nicholson e o Adam Sandler. Aliás, os actores são mesmo a única razão para ver este filme. Nicholson dá-nos mais do mesmo, mas é sempre um regalo. O Adam Sandler ganhou estatuto graças ao Punch-Drunk Love, e ainda bem, porque a sua interpretação é bem conseguida, e o contraponto com a personagem de JN funciona bem. Pena o filme ser fraquito, sobretudo porque, pelo tema e pelos actores, poderia ser outra coisa. Aliás, há momentos em que a narrativa parece estar mais fora de controlo que são interessantes, o pior é quando tudo tem de realinhar pelos finais felizes e conformados. Outra coisa engraçada do filme é a profusão de actores ou personalidades conhecidas que aparece no filme em papéis secundários, alguns deles muito curtinhos ou mesmo em simples ‘cameos’ (delicioso o papel do Woody Harrelson, sempre excelentes o John Turturro e o Luis Guzman, apagadinha demais a Marisa Tormei, e que pena, não é?, tão grande actriz ela é).

Ainda na sexta-feira, antes do bailado, fui jantar ao restaurante da Rosa Amélia, no clube de ténis. Bem, que coisa fantástica. Primeiro, uma massada de cherne (oh não!) que estava absolutamente no ponto, quer de cozedura quer de tempero. Depois, um robalo grelhado que se mostrou à mesa, e que veio servido ‘escalado’ e com um acompanhamento verdadeiramente luxuriante. Pena já não haver capacidade para sobremesa. Mas atenção, que mesmo sem vinho e sem sobremesas, o preço da refeição, merecido, claro, não está isso em causa, pareceu-me um bocado injustificado.