September 29th, 2003

rosas

sms

Subitamente, mas não sei se de todo inesperadamente, ela manda-me uma sms em que, ‘in not so many words’, me anuncia que a hipótese de sair é uma probabilidade (nem sei bem porquê, mas não me parece que seja já uma certeza). Pressinto que a sms foi a forma que ela encontrou de pôr em cima da mesa o assunto. O seu sentido de honestidade é muito forte, e devia estar a incomodá-la muito o facto de essa possibilidade me estar a passar totalmente à margem; agora que foi revelado, resolveu-se a única coisa que verdadeiramente a incomodava neste assunto.

Eu li a sms, mais de uma hora depois de a ter mandado, e só consegui responder dando conta de que o que mais me tocou na mensagem, foi eu ter percebido que havia essa possibilidade, e que era muito forte.

Desde então, tenho estado aqui a dar voltas e voltas à cabeça. Não me consigo imaginar, não consigo imaginar o meu corpo, a minha vida, o meu quotidiano, sem as suas marcas, sem os seus sinais, sem a sua presença. Sem, até, o seu perfume, o toque da sua pele, a sua mão no meu braço, os seus lábios na minha testa. Sem as suas roupas. Sem a intimidade física, de que nunca tivemos medo. Sem o facto de sabermos que, em determinados momentos, ou por determinados momentos, fomos um para o outro o que há de mais importante. Sem os nossos segredos, mesmo os que nunca enunciámos, mas que partilhámos com tranquilidade e sabedoria. Sem, não há que temer as palavras, o alimento desta amizade que tem sido sublime e apaixonada como o amor, e sem este amor que tem sido leal e verdadeiro como a amizade.
rosas

blogs e necrotério

Leio, num blog, que uma menina discreta lia no metro um livro sobre 'acumpuctura'; o autor do blog anuncia-nos que esteve quase a perguntar à menina se ela já tinha experimentado ler a bíblia. Há, nesta curtíssima entrada, uma indisfarçável presunção, supondo-se que um livro sobre 'acumpuctura' é leitura menor. Eu, pelo meu lado, temo que um dos dois esteja enganado, o autor do livro ou o autor do blog. E sugeria à menina ler o dicionário para aprender que se escreve 'acupunctura'.

Noutro blog faz-se o inventário de canções sobre a manhã. Tenho estado ansioso à espera de ver aparecer aquela que é, na minha opinião, a mais perfeita canção sobre a manhã, para mais escrita por um compositor matinal por excelência (não sei se seria, além disso, mautino, mas para já não vem ao caso). Como não há meio de aparecer por lá, aqui está o innersmile a armar em serviço público. A canção intitula-se ESTRADA DE SOL, é de Tom Jobim e Dolores Duran e é maravilhosamente assim:

"É de manhã, vem o sol,
Mas os pingos da chuva que ontem caiu
Ainda estão a brilhar,
Ainda estão a dançar
Ao vento alegre
Que me traz esta canção.

Quero que você me dê a mão,
Vamos sair por aí
Sem pensar no que foi
que sonhei,
Que chorei, que sofri,
Pois a nossa manhã
Já me fez esquecer,
Me dê a mão, vamos sair prá ver o sol."


Quando a cantora (pode ser a Gal Costa) anuncia aquele "é de manhã, vem o sol, mas os pingos da chuva que ontem caiu, ainda estão a brilhar, ainda estão a dançar", é realmente impossível não acreditar que 'é de manhã'.

Morreu o Elia Kazan. Aqui há uns anos, a Academia resolveu homenageá-lo e ia caindo o carmo e a trindade lá de Hollywood, por causa do passado de Kazan, quando delatou o nome de colegas à comissão de actividades anti-americanas, durante a caça às bruxas nos anos 50. A situação foi embaraçosa, com a assistência da cerimónia a dividir-se ao meio, entre gente que aplaudiu de pé e outros (como o Jack Nicholson, se não estou em erro) que nem esboçaram o mais ténue aplauso.
Foi pena esta mancha que ficou a sujar a obra de um realizador maior da história do cinema americano, e particularmente de um dos realizadores que, no cinema do pós-guerra, ajudou a fixar a matriz de uma determinada narrativa, com forte consciência social e cariz interventivo, e servida por um novo tipo de presença masculina no écran, protagonizada por, entre outros, Marlon Brando e James Dean que foram ambos acores de Kazan.
Mas se 'Há Lodo No Cais', 'East of Eden', 'Panic in The Streets', 'Viva Zapata!' são alguns dos filmes incontornáveis do século do cinema, para mim, Kazan foi o realizador de dois filmes, daqueles que amamos sempre, com a tranquilidade dos amores antigos, e amamos mais, com o arrebatamento dos amores recentes. São, é claro, 'A Streetcar Named Desire', que é um dos meus inquestionáveis filmes favoritos, e 'Splendor In The Grass'. São, ambos, filmes dominados por uma melancolia mortífera, de quem, tendo provado o cálice da beleza perfeita, guardou na boca apenas o travo amargo do veneno.