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rosas
innersmile
QUATRO CANÇÕES

4.
Os nossos automóveis estavam estacionados ao lado um do outro, no parque de estacionamento mal iluminado onde era habitual eu deixar o meu. Estávamos sentados no teu carro e eu, do lugar do passageiro, olhava distraído pela janela para a luz vermelha do alarme a piscar no painel do meu carro.
Nessa quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, tínhamos passado a noite juntos. Eu saí do serviço, liguei-te, meti-me na auto-estrada, e quando cheguei ao parque de estacionamento da cidade que ficava a meio caminho e era o ponto de encontro das quartas-feiras, tu já estavas, como sempre, à minha espera. Por estradas secundárias, fizemos o caminho até à praia. Fomos a tua casa, despimo-nos, amámo-nos, tomámos um duche, vestimo-nos, saímos para jantar. Fizemos devagar o percurso de regresso, demos uma volta pela cidade, e parámos no parque de estacionamento, onde o meu carro estacionado era sempre a lembrança de que havia vida para além de nós os dois, e que estava a chegar a hora de eu transpor o limiar que separava os dois mundos: o teu, onde só tu existias, e o outro, onde tu eras uma ausência determinante.
Conversávamos. Era uma conversa ligeira, de despedida. Estava já cumprida a paixão dos nossos encontros, e agora seguíamos um ritual que devagar nos aproximava do pulsar normal do quotidiano. Como se aquele parque de estacionamento, onde não nos podíamos ao menos beijar, fosse a câmara de descompressão entre o casulo de uma nave e a vastidão agreste de um oceano escuro e oco. Tu contavas uma ou outra novidade sem importância que tinha ficado esquecida, e eu lastimava-me do insuperável resto de semana que faltava para te tornar a ver. Eram sempre assim os encontros das quartas-feiras.
Eu sei que olhava distraído pela janela para a luz vermelha do alarme a piscar no painel do meu carro. Não me lembro de que é que falavas, não me lembro sequer de como é que, cautelosamente por certo, introduziste o tema. Todas as palavras, todas as conversas que trocámos até esse momento, se esvaziaram. Só me lembro de ouvir a tua voz, doce, macia e sedutora como sempre, a dizer “eu gosto muito de ti, mas não te amo”. Pareceu-me natural. Talvez pelo tom circunstancial que empregaste, não senti estranheza alguma. Soava como o desenvolvimento, um pouco inesperado e desagradável, é certo, mas todavia previsível, da nossa história. Ali, naquele parque de estacionamento, ao fim a noite, não ousei sequer questionar se o que dizias fazia sentido.
Talvez te tenha perguntado quando é que tinhas chegado a essa conclusão. Lembro-me de teres dito que durante as minhas férias tinhas saído outra vez com os teus amigos, e te tinhas sentido bem na sua companhia. E que tinhas sentido que se calhar estavas melhor com eles do que comigo e que, se calhar, isso era sinal de que já não me amavas. Gostavas muito de mim, repetias, como se me pudesse consolar a ideia de que havia uma alternativa ao amor, que não sendo tão brilhante e compensadora, seria, ao menos, um sucedâneo não de todo desprezável. Ou desprezível. Como se para evitar afogar-me, eu me pudesse agarrar, como a um destroço, à consolação, de que tu, afinal, gostavas muito de mim.
Lembro-me de que, na altura, me passou pela cabeça a ironia do que acabavas de me dizer: as minhas férias tinham durado a breve eternidade de oito dias, nós vivíamos a cem quilómetros um do outro, encontrávamo-nos apenas uma noite durante a semana e passávamos juntos apenas parte dos fins-de-semana, e além disso tu, todas as noites, ou quase todas as noites, saías com o grupo de amigos que tinhas há já muitos nos, e cujos nomes já me eram tão familiares que eu falava deles como se fossem meus amigos também, apesar de não os conhecer, nunca os ter visto sequer, a não ser através de umas fotografias, mas ver fotografias de pessoas que não conhecemos é confirmar a impossibilidade de se amar um estranho. Como é que tu podias ter descoberto que afinal já não me amavas, em oito dias?
Mas, como disse, naquele momento, pareceu-me natural. Não senti dor ou mágoa, vazio ou desconsolo. Pareceu-me certo. Tu não me amavas. Gostavas muito de mim, mas não me amavas. Nós não íamos envelhecer juntos? Íamos, mas isso são as coisas que se dizem quando se ama. Tu não ias ter uma quinta que tinha um lugar para mim? Ias, mas isso era quando me amavas. Consegui, por isso, sair do teu carro sem tropeçar, e dizer-te boa noite sem sufocar. O mundo, apesar de tudo, não desabava. Meti-me no meu carro e, como habitual, fizemos o percurso de regresso a falar ao telefone. Preocupava-te como é que eu estava. Mas eu estava bem. Não reconhecia a noite para além do feixe de luz dos faróis do automóvel, mas estava bem.
Passei o resto da semana em suspenso. Sem saber. Tudo parado. Todo parado. Como uma cadência subitamente interrompida e que, inevitavelmente, vai ser retomada um pouco adiante. Tu eras ainda tu, naturalmente tu, todo tu. Tu eras tu como tinhas sido tu até aí. Ainda tu. O mundo não era senão tu. O mundo não era se não fosses tu, e por isso parecia não ter acontecido nada. Quer dizer, não estava a acontecer nada, estava tudo parado. Suspenso.
O fim-de-semana seguinte chegou, como se houvesse por detrás dos acontecimentos uma contagem decrescente inexorável. Não fui ter contigo, queria que viesses tu a minha casa, conhecer a minha casa, ver o meu gato, passar o dedo pelo pó que se acumula no vidro das molduras de fotografias. Como se mostrar-te a minha vida te mantivesse dentro dela. Tu adiaste, Sábado de manhã que era Sábado à noite, depois passou para Domingo, vinhas almoçar, vinhas para o café depois do almoço. Domingo ao princípio da tarde telefonaste a dizer que um teu amigo, o teu maior amigo, tinha tido um acidente e que não podias vir, talvez só ao fim da tarde, ou mesmo depois do jantar, ou então só na segunda-feira.
Vinte e seis de Março. Seis da tarde. Liguei-te. Perguntei-te pelo teu amigo. Estava bem, tinha passado pelo hospital, mas não tinha nada de especial. Perguntei-te se vinhas ter comigo, respondeste que não podias, tinha que ficar para o dia seguinte, talvez.
Eu tento dizer adeus e sufoco, tento afastar-me e tropeço. Parece-me claro: o meu mundo desfaz-se quando tu não estás ao pé de mim. A diferença é que, à luz negra que brilha sobre um vazio, eu já o vejo a desmoronar-se, começou-se a desfazer. Sufoco e tropeço, mas sei que este mundo que desaba já não existe. Sufoco e tropeço, mas sei que a única coisa que posso fazer é afastar-me, e depressa, dos destroços, da poeira que aos poucos me vai turvando os olhos. E eu digo-te: “então se não podes vir agora, acabamos já com isto, não vale a pena continuar”.
A partir desse momento, tu passaste a ser só a imagem de um mundo desfeito.
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innersmile
Duas pessoas estão na praia, a conversar. Diz uma delas, apontando para um indivíduo de calções vermelhos e t-shirt branca, magro e com um enorme bigode retorcido nas pontas:
- Aquele é que é o nadador salvador daqui?
Responde a outra:
- Não, aquele é o salvador dali.
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innersmile
Era um pedreiro tão jacobino que quando ouviu falar na opus gay foi a correr inscrever-se na mariconçonaria.
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