September 25th, 2003

rosas

qc 3/4

QUATRO CANÇÕES

3.
Vem vem vem vem vem vem vem vem vem vem vem vem vem vem vem.
Atendi o telemóvel e do outro lado a voz de uma cantora a pedir, a convidar, a suplicar, a ordenar.
E eu metia-me no carro, avançava pela auto-estrada, e encontrávamo-nos em todos os sítios possíveis, em centros comerciais, em pastelarias, em sítios isolados, em descampados, em áreas de serviço, em postos de portagem, em parques de estacionamento. Ou na tua casa.
Havia um ritual em pôr em funcionamento a tua casa onde não vivias e que usavas esporadicamente. Lembro-me de pensar, a primeira vez que lá entrei, que era uma casa para os teus encontros amorosos, mas nunca mais pensei nisso, apesar de ser, como se eu fosse a prova instrumental, verdade.
Entrávamos e havia uns cinco ou seis degraus que desciam para uma sala, e nós amávamo-nos logo ali nessa pequena escada, sentíamos no corpo do outro a distância, os dias da distância, a inevitabilidade de estarmos longe, ou então a inevitabilidade de ser a lonjura a marcar os nossos encontros, como se estarmos longe um do outro fosse a razão que nos aproximasse. Despíamo-nos na sala, na marquise, nos estores corridos, no quadro da parede da sala iluminado por um foco, despíamo-nos pelo corredor a caminho do quarto, despíamo-nos na minúscula janela da casa-de-banho que estava sempre aberta, despíamo-nos nos respiradouros por onde nos chegavam as vozes e os barulhos da vizinhança (e gozávamos a possibilidade de chegar até eles o barulho que fazíamos a despirmo-nos) e espalhávamos as roupas cuidadosamente pelo chão, e tu arrumavas descuidadamente a tua roupa no roupeiro, e corrias as tiras do estore, e deitávamo-nos até ser depois.
Lá fora, o Inverno ia-se aos poucos instalando, fim de semana após fim de semana. Saíamos para jantar nos restaurantes quase vazios de uma localidade à beira-mar. Era uma praia, uma terra pequena onde se alugavam casas às quinzenas, e onde havia snack-bares cheios de grupos de jovens e enormes televisores que passavam videoclips ou desafios de futebol, e era nesses bares onde por vezes jantávamos, ou numa pizzeria junto ao mar. A neblina fria da noite iluminada pelos candeeiros de luz amarela forneciam o cenário perfeito para os nossos passos rápidos, cruzando a rua pedonal, sem nos tocarmos mais do que o necessário para nos sabermos ao lado um do outro e amorosamente juntos.
Dávamos uma volta de carro, tu fumando cigarros e eu fumando os teus olhos, o estéreo do carro a passar cassetes que eu trazia, os faróis do carro iluminando desertas estradas florestais por onde eu achava que não devíamos andar mas por onde me levavas, estabelecendo e definindo uma geografia que tu parecias ter desenhada com rigor e que eu, até hoje, nunca fui capaz de perceber. O que significavam essas noites, os quilómetros postos no carro a gasóleo? Por onde me levavas? Para onde me levavas? Era como se fugíssemos, mas não havia nada do que fugir. Era como, talvez, agora que penso nisso talvez o perceba, não sei, ao andarmos de carro horas perdidas sem destino certo, evitássemos estar parados num sítio onde tu talvez não quisesses estar parado, mas nada disto, talvez, faça qualquer sentido, ou então não faz um sentido que eu perceba.
Regressávamos a tua casa já a noite ia mergulhando na madrugada e eu pedia-te para irmos pelo caminho da praia, queria ver as ruas desertas, ainda hoje parece que ao colocar-me contra o vazio me vejo melhor. Nos vejo melhor.
Lá fora a noite fria, o ar gelado entrando pelas frinchas da roupa, e nós na caldeira da noite.
Adormecer e sonhar. Eu queria adormecer nos teus braços e sonhar, como se diz nas canções populares, mas ficava acordado sem conseguir adormecer a ouvir-te dormir, a ouvir o ar que respiravas, a ouvir-te sonhar. A ouvir-te dormir. Toda a noite. Tu dormias como se dormir fosse a única coisa para que existisses. Tu dormias e dormias. E eu via-te dormir. Ou voltava costas e ouvia-te dormir. Ou fechava os olhos e sonhava-te dormir. E apoiava-me no cotovelo e debruçava-me para o teu dormir.
E de manhã voltávamos a ser o que éramos, mas era já diferente, porque a manhã não é igual à noite e havia sol lá fora, um sol claro e frio que não secava a humidade nocturna que se demorava nas sombras e nos jardins. E levantávamo-nos, tu tomavas banho, eu tomava banho, eu olhava para o teu cabelo molhado, e não havia nada mais belo do que o teu cabelo molhado, só mesmo o teu ar quando fazias de conta que eu não estava a olhar para ti e tu sabias que quando eu estava a olhar para ti a fazeres de conta que não sabias que eu estava a olhar para ti, não havia nada de mais belo na manhã.
Saíamos para a rua, voltávamos ao teu carro, e íamos tomar o pequeno-almoço num café sobranceiro à praia, bebíamos galões e comíamos torradas, eu lia o jornal e tu desfolhavas ausente revistas enquanto os galões e as torradas não chegavam, e depois comias tudo rapidamente e até a comeres a manhã era mais bela e luminosa.
Éramos felizes. Eu era feliz. Éramos felizes. Até eu me tornar a meter no meu carro e voltar para a distância, tu sempre ao telemóvel a dizeres-me que me amavas e a contares-me os teus planos. Falavas sempre da tua vida, de como ia ser a tua vida, de como tu estavas certo de que ia ser a tua vida, quando depois de passarmos a noite e a manhã juntos, nos despedíamos e nos afastávamos. Depois eu saía com cuidado da auto-estrada, dizia-te que estava a chegar ao posto da portagem, despediamo-nos com ‘um beijo’ e desligávamos.