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rosas
innersmile
QUATRO CANÇÕES

2.
Quando desliguei o computador, olhei para o relógio: eram cinco da manhã e as horas tinham passado como as águas de um rio que não raspam nas pedras do fundo e se precipitam em catarata. E eu dançava como se os meus pés não tocassem o chão, como se as frases que escrevias fossem os teus braços, e tu com eles me segurasses o tronco, me enlaçasses pela cintura, e eu me deixasse conduzir, rodopiando e flutuando pelo tapete da noite. Ainda não tinha ouvido a tua voz, não tinha ainda nunca ouvido a tua voz, mas as palavras já me soavam como só a tua voz as podia pronunciar, o tom da tua voz era quente e suave, e era essa quentura e essa suavidade que encapsulavam já a tua voz em ninhos de algodão fofo e aveludado.
Eu seguia-te como um cego, preso às frases que cintilavam no écran do monitor. Eu era um tipo maduro, quase um quarentão, tinha batido em muitas portas, entrado em muitas casas, sentado em muitos sofás, bebido muitos uisques, amado em muitas camas, ou nem por isso, mas era a primeira vez que alguém me falava assim, ou seria apenas, mas apenas parece uma palavra tão frágil, a primeira vez que eu ouvia alguém falar-me assim. Não há amor à primeira vista, todos o sabem, mas há amor ao primeiro som, amor à primeira palavra, amor à primeira frase que cintila num écran de computador, uma estrela da noite, uma estrela na noite, a luz de um farol numa costa de escarpados segredos, uma canção que se ouve pela janela aberta de um carro que passa veloz por nós e sabemos que aquela canção que nem chegámos a ouvir nos era dedicada como nos programas de discos pedidos.
E às cinco da manhã eu estava pronto para recomeçar a dançar, para recomeçar tudo outra vez desde o início, e dançaria ainda toda a noite, ou o que restava dela, e a madrugada das promessas vistas sob a crueza da primeira límpida luz, pronto para te suplicar por mais, e espraiar as minhas asas e levantar voo, porque quando as tuas palavras, quando o som adivinhado das palavras que escrevias me tomou nos braços e começámos a dançar, eu soube que poderia dançar contigo toda a noite.
Depois veio o Sábado, e veio o Domingo, e todos os gestos tinham já o som das palavras que eu ainda não tinha ouvido, até que ao final da tarde já não podia esperar mais e saí de casa, guiei até um parque de estacionamento junto a um centro comercial antigo, que já tinha sido há muito abandonado de clientes e dinheiro, e aos poucos foi também sendo abandonado de lojas e automóveis estacionados no parque de estacionamento.
E arrumei o carro, desliguei o rádio, olhei para o telemóvel e pensei que tinha chegado a hora: marquei o teu número e tocou e tu atendeste e a primeira palavra que te ouvi pronunciar foi “estou” e eu disse “sou eu” e tu disseste “eu sei que és tu” e eu perguntei “como é que sabias que era eu?” e tu respondeste “porque não reconheci o número e pensei que só podias ser tu. E tinha a esperança que fosses tu” e eu disse “finalmente ouço a tua voz” e tu perguntaste “e então” e eu respondi “é linda” e tu disseste “tu és lindo” e eu ri-me e disse “e tu tens a conversa toda” e tu disseste “mas tu gostas da conversa toda” e eu respondi “adoro a conversa toda” e tu perguntaste onde é que eu estava e eu respondi que estava em tal sítio assim assim, e tu disseste que sabias onde era e perguntaste se eu queria que tu viesses ter comigo e eu disse que tu eras louco que estavas a mais de cem quilómetros de distância, e tu disseste que não fazia mal, que vinhas à mesma ter comigo, que era só o tempo de pores o carro a trabalhar e que vinhas logo ter comigo e eu perguntei se tu estavas a falar a sério, e tu respondeste a rir que claro que estavas a falar a sério, que querias estar comigo.
Depois chegou quarta-feira mas entretanto de cada vez que eu abria o correio electrónico, tinha uma mensagem tua. Respondia, e passado um bocado tornava a abrir a caixa do correio e já tinha outra mensagem tua. E mandaste-me uma fotografia tipo passe em que tinhas o ar composto que todas as pessoas têm nas fotografias tipo passe, e eu fiquei a olhar para a fotografia a rejubilar com a aparente normalidade do teu ar composto. E nessa quarta-feira tornámos a falar ao telemóvel e depois de te rires e dizeres frases sedutoras, disseste num tom grave e rouco, que precisavas de me ver, de saber como era o meu aspecto, porque estavas quase a passar por um ponto de onde não há retorno mas que só podias passar esse ponto depois de saberes como é que eu era. E combinámos que nos encontraríamos no Sábado seguinte, e que eu iria ter contigo.
E no Sábado seguinte eu fiz pela primeira de centenas de vezes a viagem de auto-estrada que redesenharia para sempre o mapa viário do meu coração.
E encontrámo-nos e fomos para uma praia e estava um dia de neblina, e as pessoas passeavam os cães pelo areal, e havia ultraleves a levantar voo e a aterrar por detrás das dunas ao fundo da praia. E foi nesse dia que tu me pediste para eu tirar os óculos e com o dedo indicador e o polegar tiraste uma pestana do meu rosto e a pele dos teus dedos queimava. Os teus lábios queimavam. A tua pele queimava. Os teus cabelos queimavam. As tuas pernas queimavam. O teu ventre queimava. Cada milímetro quadrado da tua pele queimava. Cada milímetro quadrado de ti queimava.
Ofereci-te o disco que te trazia. Puseste-o a tocar no leitor de cd’s. Começámos a dançar, e eu soube que poderia dançar contigo a noite toda.
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