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qc 1/4
rosas
innersmile
QUATRO CANÇÕES

1.
Haverá com certeza uma canção popular que fale do último dia que vivi sem ti. Uma canção que fale do meu quotidiano monótono e rotineiro, que conte com pormenores maçadores o que foi essa sexta-feira. De como me levantei à hora habitual, de como apanhei o comboio pontual e de como subi para a carruagem do costume, de como me sentei de costas para o mundo e abri a página do best-seller que tinha comprado uns dias antes no quiosque da estação, de como cada livro, não importa que seja muito grande ou mais pequeno, demora cerca de uma semana e meia de viagens de comboio matinais, de como cheguei à baixa e tomei o pequeno-almoço no local do costume, de como o empregado me lançou um olhar de reconhecimento sem jamais dar a entender que a minha presença ali, sempre à mesma hora, há tantas semanas ou meses ou anos, lhe é familiar, de como entrei no escritório e liguei o computador, vi o correio electrónico onde o número de mensagens pessoais de amigos e colegas ultrapassa sempre, largamente, o número de mensagens profissionais, de como me ri com as últimas anedotas e me distraí com um mpeg interessante e com um jogo muito simples de que alguém me enviou o endereço, de como peguei na cesta dos registos e passei a maior parte da manhã a carregar maquinalmente sempre nas mesmas teclas, a tecla do enter tão gasta que está castanha e já não se conseguem ler os caracteres, de como fumei um cigarro a olhar de forma ausente para a máquina do café e para os braços de um colega, de como almocei, desta vez com companhia, num dos três restaurantes onde almoço habitualmente, e habitualmente sozinho, de como passei a tarde a tentar fazer o menos possível, é quase tradição fazer o menos possível nas tardes de sexta-feira, de como saí às cinco e meia, depois de verificar mais uma vez o correio e ter constatado que ninguém me tinha escrito a propor um programa para a noite, um anda a estudar para exames, outro está no Algarve a fazer um projecto qualquer, outro qualquer foi desaparecendo devagarinho de cena e do mapa, de como me enfiei num centro comercial e vi dois filmes seguidos, e não sou capaz de me recordar que filmes foram, com quem eram, de que género, sei que estive enfiado em salas escuras mais de quatro horas só com um intervalo rápido para uma sopa que servem em terrinas enormes, de como apanhei o comboio de regresso já deserto àquela hora, para mais sendo sexta-feira e ninguém decente, com vida própria, com amigos, com namoro, com família, viaja àquelas horas de comboio, de como entrei em casa feliz por ser fim-de-semana, de como despi a roupa de trabalho, de como fiz uma tosta e bebi um copo de leite, de como olhei para o jornal que tinha comprado para me distrair na viagem de regresso, e constatei que não ia dar nenhum filme de jeito na televisão e com o regresso tardio não tinha conseguido passar pelo clube de vídeo, de como me deitei a ouvir a chuva a bater na janela, que tinha súbita e inesperadamente começado a chover no final daquela sexta-feira de fim de verão, e de como finalmente adormeci.
Não faz parte dos cânones das canções populares que as pessoas solitárias e em estado mais ou menos grave de carência emocional, em vez de se deitarem a ouvir na escuridão a chuva a bater na janela, se sentem antes em frente aos seus computadores domésticos, enfiem um cd qualquer no leitor de cd’s do computador, e se liguem às salas de chat, na esperança um pouco patética e desesperada de encontrarem alguém, que goste igualmente de cinema, de jazz, e de romances norte-americanos e poetas portugueses, e com quem se passe um bom bocado de conversa, que pode vir a culminar num café para se conhecerem, ou mesmo num cinema, e que se tornem ‘amigos ou algo mais’, ou mesmo na esperança ainda mais patética e desesperada de encontrarem duas horas de urgência e calor que acabem, irremediavelmente, em manchas no lençol que é preciso levar à lavandaria que a mulher a dias é a mesma que vai a casa do pais e o menos que se deseja é falatório e comentários.
Pus um cd a tocar no leitor de cd’s do computador, liguei-me à net, entrei numa sala de chat, e abri o site dos meus jogos favoritos, sempre se batem uns recordes enquanto ninguém interessante aparece para teclar. Passou um grande bocado, houve tentativas de conversa que não deram em nada, e conversas que nem tentativas foram, e quando estava quase a bater o recorde do meu jogo preferido, o computador fez o sinal sonoro de um contacto novo. Pus o jogo em pausa e abri a janela, com uma alcunha que não me dizia nada, mas de que não me esqueço: ‘amor_eterno’. ‘Boa noite’, apareceu escrito no monitor. Posicionei o cursor, teclei ‘olá, boa noite, tudo bem?’ e carreguei na tecla do enter.
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