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ken park e outros beijos
rosas
innersmile
O principal problema de Ken Park é que, uma vez terminado o seu visionamento, ficamos sem saber muito bem o que fazer do filme, para que é que ele serve. É certo que a sequência final, com Peaches, Shawn e Claude envolvidos numa longa cena de sexo a três, parece indicar um sentido para o filme, o de que, depois do inferno do mundo dos adultos, há lugar para uma redenção adolescente. Mas é, convenhamos, uma saída um pouco frágil e forçada, para quem acabou de passar perto de 90 minutos a confrontar o espectador com um lugar insuportável onde o sexo serve uma fractura espiritual catastrófica e pungente. Mas não nos parecem sobrar muitas alternativas. Ou aceitamos que todo esse choque encerra tudo menos uma pulsão (ou mesmo uma compulsão), ou então o filme de Larry Clark fica perigosamente parecido com aquela campanha publicitária de Calvin Klein que usava corpos adolescentes para vender roupa interior para adultos.
O problema é que esta sensação de mãos vazias é demasiado poderosa para poder ser ignorada, e acaba por contaminar toda a relação com o filme. Apesar disso, há coisas neste filme que estão muito bem geridas, nomeadamente a tensão constante de violência que parece estar sempre na eminência de explodir e que, porventura significativamente (do ponto de vista da eficácia narrativa), nunca explode de forma verdadeiramente radical e transformadora.

O filme é, claro, chocante. Nomeadamente a situação de desamparo, moral mas também físico, em que vivem todas as personagens, umas mais do que outras, mas que parece 'vitimizar' os adolescentes e 'demonizar' os adultos. Muito mais do que as famosas, e escandalosas, cenas de sexo explícito. Aliás, as cenas de sexo, da primeira à última, sem excepção (mesmo o avanço pedófilo do pai de Claude, mesmo a masturbação alucinada de Tate), são todas filmadas com uma candura que não é desmontada pelas imagens de pénis erectos. Agora o que é muito mais intrigante é a reacção dos espectadores: numa sala ocupada maioritariamente por jovens adultos, as cenas de sexo eram sempre acompanhadas por um audível e visível desconforto na sala, com risos, tosses, comentários em surdina, e, até, abandono na sala (três espectadores, jovens, sairam logo na primeira cena, a que se passa entre Shawn e a mãe da Hana). Não acredito que nenhuma daquelas pessoas (enfim, estou a generalizar, poderá haver excepções...) nunca tenha participado num acto sexual, pelo menos numa masturbação, nem que nunca tenham alguma vez visto imagens de sexo, em fotos ou filmes (ou mesmo ao vivo!) Então porquê o desconforto? Porque o sexo é, ainda, o penúltimo tabu (sendo que o lugar de honra ainda vai para a morte)? Por uma questão de pudor? Não penso que fosse por hipocrisia, o desconforto era real, sentia-se, era palpável. Sem dúvida, o elemento chave nesta questão está no facto de se estar em grupo, de sermos obrigados a ver sexo, partilhadamente. É o facto de se estar acompanhado, por estranhos mas, se calhar ainda pior, por amigos ou pela/o namorada/o, que causa tanto embaraço. Ou seja, e com a eventual excepção dos casos de fétiche de natureza exibicionista, a noção de que o acto sexual é de natureza tão íntima e reservada, é de tal forma forte e adquiriu mesmo a densidade de um postulado moral ou comportamental, que se estendeu à própria representação do sexo. Tal como o sexo se pratica “às escondidas”, também o visionamento das suas representações não pode ser um acto a praticar em público. Será isso?

Mas ontem fui buscar uma amiga minha para almoçar e estava parado à porta de casa dela à sua espera, janela aberta e braço de fora, rádio alto, quando parou subitamente um carro atrás de mim, um Peugeot 205 branco, e o casal ocupante beijou-se com uma ardência urgente e natural. Aquele beijo inicial prolongou-se pelo tempo que é habitual estes beijos sôfregos e urgentes durarem, e depois seguiram-se beijos mais curtos e carícias e festinhas. Como o condutor nunca tinha desligado o carro, passados uns cinco minutos, fez marcha-atrás (estava mesmo colado ao meu carro) e seguiram viagem. Aquele casal apaixonado sabia que eu estava ali e nem por um momento a sua intimidade (sim, um beijo pode ser, É!, dos mais íntimos actos amorosos) pareceu ser afectada pelo facto de saberem que eu, por muito discreto que fosse, não conseguiria evitar estar a assistir pelo espelho retrovisor àquele momento verdadeiramente cinematográfico. Veio-me à ideia: será que eles ontem estavam naquele grupo de pessoas que tossicavam e davam risinhos de cada vez que aparecia um pénis duro no ecrã?
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pizza e companhia
rosas
innersmile
Ontem queria encomendar uma pizza para o almoço. Telefonei para o número da central de encomendas da Pizza Hut e a senhora que me atendeu disse-me que a minha morada não constava da base de dados dela; havia lá nomenclaturas (a expressão é minha, pois!) parecidas, mas não exactamente iguais, e ela tinha receio de que o distribuidor não conseguisse entregar a pizza. Deu-me o número de uma loja de Coimbra, e mandou-me telefonar para lá. A senhora que me atendeu deste segundo número, disse-me que não podia aceitar a encomenda por aquele número, para eu ligar para o número da central de encomendas. Expliquei-me todo, claro, mas ela disse-me para eu ligar novamente para o 808 e explicar que tinha de fazer lá a encomenda. Eu respondi que não ligava nada, porque já ia no terceiro telefonema para encomendar uma pizza, que a morada que eu tinha dado é a que os correios normalmente usam para me entregar as cartas e as encomendas e o correio registado, e perguntei se eles estavam ou não interessados em vender pizzas?! Propus-lhe que, caso estivesse realmente interessada em vender-me a pizza que eu estava interessado em comprar, que resolvesse lá o drama dela e que me telefonasse a Pizza Hut a mim!
Desliguei, procurei na lista o número da Telepizza, telefonei e encomendei, às apalpadelas porque não tinha nenhum ‘leaflet’ da TP, e com a ajuda da senhora que me atendeu, uma pizza média e uma salada. Mal desliguei, tocou novamente o telefone e era uma senhora da Pizza Hut, talvez a primeira com quem falei, a dar-me uma longa explicação acerca das moradas, da base de dados, e da falta de garantia de que o distribuidor encontrasse a minha casa com facilidade. Agradeci, e disse que já tinha feito a minha encomenda na Telepizza, tendo tido o especial cuidado de levantar ligeiramente a voz e pronunciado pausadamente a palavra ‘T-E-L-E-P-I-Z-Z-A’.

A parte boa desta aventura foi mesmo quando apareceu o distribuidor para entregar a pizza. Um tipo novo, vinte e poucos, gordinho, que começou a contar muito simpaticamente as dificuldades que tinha tido para dar com a porta porque o meu prédio tem duas portas, uma para o lado esquerdo outra para o direito e ele não encontrava, do lado em que estava, a campainha da minha casa. Sem eu perceber muito bem como, começou a falar do estádio novo, do facto de ainda não estar pronto, das dificuldades que vai haver no concerto dos Rolling Stones, e de como nada disso lhe interessa porque ele quer mesmo é que o estádio esteja todo lindo para quando jogar a “nossa” académica. Explicou-me que só tem três clubes: o clube de todos os portugueses que é a selecção, a académica e o futebol clube do porto. Arrancou seguidamente para uma análise prévia das dificuldades que ia haver no jogo de ontem à noite. Lembrou-se de me perguntar se por acaso eu não era do sporting, e quando eu respondi que sim, desatou a gozar comigo, a apertar-me a mão e a dar-me os sentimentos por causa do desaire frente ao moreirense. Ao fim de muita conversa, lá se foi embora!
É incrível como a vida nos prepara estas partidas. De repente, saído do nada, aparece-nos à frente um desses seres humanos, raros e preciosos, que parecem tocados por uma imensa pureza e honestidade (eu ia dizer ingenuidade, mas a expressão pareceu-me demasiado contaminada), como se o tráfico hipócrita, político e estratégico das relações sociais não lhes tivesse maculado um único milímetro da sua personalidade. É evidente que o tipo devia sofrer de alguma falha, havia ali qualquer coisa que não funcionava bem, uma espécie qualquer de atraso, não sei. Mas tudo isso, seja lá o que fosse, ao invés de o diminuir, aumentava-o. Ali, naquele princípio de domingo, o desajeitado era eu. Senti-me muito comovido com aquele tipo que me apareceu à porta para me entregar uma pizza. Porque ele tinha uma coisa que eu não tenho: ser capaz de gostar, sem pensar nisso dois segundos, sem reservas e sem receios, de um completo estranho que lhe abre uma porta quando ele anda a trabalhar. Só porque, provavelmente, ele sabe essa coisa simples e intuitiva de que somos ambos seres humanos. E que isso é garantia suficiente para estarmos à vontade um com o outro.
Leio este texto que acabei de escrever, e parece-me desajeitado. Curto. Estreito. Muito aquém do que eu gostaria de ser capaz de escrever para homenagear o tipo que anda a entregar pizzas que foi capaz de transformar e dar sentido ao meu domingo.