August 29th, 2003

rosas

derramamentos

Ela tem um derrame num dedo da mão. Concerteza nada de grave, passa ao fim de alguns dias. Mas ontem quando a fui visitar à noite, estava a disfarçar um medo terrível, que apenas se deixava apanhar nos olhos cheios de lágrimas. Esta sua crescente fragilidade (e a forma como eu sinto que represento tudo para ela) comove-me muito para lá do que eu sou capaz de exprimir, e deixa-me o peito à beira da explosão. Por vezes, todo o bem de que somos capazes parece sempre ser diminuto face ao bem de que precisam aqueles que amamos de forma irracionalmente incondicional.

Entro hoje de férias. A meio da próxima semana, saio para uns dias nas minhas "termas" habituais. Mas esta altura em que estou quase a deixar o meu posto de trabalho é sempre cheio de melancolia. Como se fosse a prova bastante de que o mundo (o local de trabalho, os funcionários, os colegas, a secretária, o gabinete) continua sem nós. E continuaria, e continuará, mesmo no dia em que este abandono não for provisório.
E desta vez até há razões, aparentemente objectivas, para eu temer (provavelmente mais emocional que racionalmente) que o mundo que vai estar à minha espera no regresso seja diferente do mundo que vou deixar hoje. Há muitas alterações em curso, e muitas mais se perspectivam como possíveis de acontecer nos próximos dias.

Custa-me muito aceitar (mas "de perto ninguém é normal" - ainda vale a pena referenciar esta repetida citação a Caetano Veloso?), mas a verdade é que ninguém, mas 'eu' é o que me concerne neste momento, escapa à curiosidade sórdida pela indignidade. Não resistimos a ir espreitar o lixo, mesmo quando sabemos que é lixo, e não resistimos a pensar, cinica e malévolamente, na hipótese de a indignidade ser verdadeira.
Por outro lado, não deixa de ser curioso o facto de eu não acreditar nem um bocadinho na teoria da conspiração (antes pelo contrário, acho que a verdade vem sempre ao de cima, é tão poderosa que arranja sempre maneira de se revelar; nisto concordo com o "Botas": o que parece é!, pelo menos na maior parte das vezes), e no entanto ser fascinado por ela. Pelo seu carácter elaborado, pelo puzzle minucioso, enfim, pelo seu lado 'artístico'! Se para tanto me chegasse a imaginação, não me importava de trabalhar num gabinete secretíssimo cuja missão fosse inventar teorias da conspiração para explicar todos os factos da vida, mesmo, ou sobretudo, os aparentemente mais óbvios.