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Apesar dos títulos do clube de video não serem muito brilhantes, sempre dá para ver alguma coisa, e até para ter agradáveis surpresas. Ontem vi Flawless (francamente, o título em português era tão improvável que até me esqueci qual era), do Joel Schumacher, que não é propriamente um realizador que eu goste, como ainda recentemente comprovei com o 'Phone Booth'. Este 'Flawless' é a história da impossível amizade entre um polícia nova-iorquino duro e conservador, e um drag-queen daqueles da pior espécie! Claro que o filme percorre a via sacra de todos os clichés em que se possa pensar a propósito de tal tema, e é previsível como uma novela da tvi. Mas apesar de tudo tem alguns trunfos interessantes, sendo que o primeiro são os diálogos, sobretudo as falas de Rusty, a drag queen. Os actores são outro dos trunfos do filme. Robert De Niro faz de polícia, e o seu papel de alguém que recupera de um ataque cardíaco tem aquele toque de underacting em que o De Niro cada vez mais se refugia quando lhe dá a preguiça. Mas é Philip Seymour Hoffman que rouba completamente o espectáculo no papel de Rusty, ao ponto de, nas contracenas, quase nos esquecermos que aquele tipo ali ao lado é o De Niro! O seu desempenho não tem costuras, não há ali pontas soltas, a personagem como que está sozinha, não se vê que haja alguém a habitá-la. Mas, por outro lado, também não é aquele 'encarnar' da personagem típico dos tipos do método. Não, PSH como que veste a personagem ao ponto de desaparecer por detrás dela, mas sempre como uma certa distância em relação à personagem e ao seu destino. Eu sei que não devo estar a fazer muito sentido, mas é que é dificil pôr em palavras aquilo que é uma coisa nova, faltam-nos os conceitos e as definições pré-estabelecidas. E a maneira de PSH agarrar as suas personagens é nova e não entra facilmente numa daquelas categorias que já conhecemos. Acho que não é grande exagero dizer que PSH é um dos melhores, se não o melhor, actor de cinema actual, e seguramente um dos maiores de todos os tempos.

Estou a ouvir o End Of The Century, dos Ramones. É um album um pouco estranho, produto do grupo de Joey e sus hermanos, mas também, e muito, do produtor Phil Spector e da sua 'wall of sound'. Aliás, é curioso que aquele que é provavelmente o meu disco preferido do Leonard Cohen é um disco que o próprio LC renegou (e que não aparece normalmente nas colectâneas) precisamente porque o achou de todo atípico, o Death Of A Ladies Man, produzido pelo PS. Este EOTC é de igual modo um produto híbrido, um cruzamento estranho entre a energia dos Ramones, e o pop melódico e muito sixties do PS. Mas, tal como no disco do LC, há aqui canções imperdíveis, lindas, e o disco tem o mesmo sabor de coisa irrepetivel, de improvavel encontro, uma mistura da acidez da maturidade com a doçura de um pomo adolescente.

Vai para dez anos, conheci a C. Tinhamos sido contemporâneos na faculdade sem nunca nos termos chegado a conhecer, e partilhávamos alguns bons e chegados amigos. E eu conheci-a porque a C. teve cancro da mama. Eu e a OI tinhamos uma espécie de duo dinâmico que corria em apoio de outros "colegas" vítimas da doença do caranguejo, e, até pela proximidade, fomos "recrutados" para apoiar a C, que estava, para além de doente, muito zangada com a vida. A C safou-se e durante estes anos eu ia sabendo dela, de longe em longe, pelos tais amigos comuns. Há duas semanas, telefonaram-se a dizer que a C estava internada no HUC com um problema nos pulmões; disseram-me ainda que tinha feito um centigrama ósseo e que parecia que tinha muitas metástases. Entretanto, quem dela me dava notícias saíu de Coimbra e eu fiquei estas duas semanas sem saber notícias. Ligaram-me há bocadinho a dizer que a C morreu. "Raios partam a vida e quem lá ande", não é?