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fausto papetti (conto)
rosas
innersmile
Ela fechou todas as portas e janelas. A sala ficou sombria e fresca. Pôs a tocar no gira-discos um disco antigo, que tinha ficado do tempo dele. A orquestra de Fausto Papetti a tocar êxitos de todo o mundo dedicados aos amantes, o saxofone a encher langoroso as memórias dela, de lembranças sensuais e amargas. Talvez tenha adormecido, mas passou a maior parte dos minutos seguintes num torpor que lhe trouxe, nítida como uma fotografia, a imagem dele, o sorriso molhado, o sal nos cabelos. Um rosto feliz de despedida. A seguir, atrás de um acorde mais suave do saxofone, o sabor da pele dele, como era diferente o sabor da pele mais exposta, quente e ligeiramente ácida, do da pele mais resguardada e branca, fresca como um copo de água com muito gelo. A pele dele era um céu que a cobria como o final de uma tarde de Agosto. Pareceu-lhe depois ouvir a voz dele, num requebro qualquer do saxofone. A voz dele a soprar-lhe um murmúrio ao ouvido, um arrepio que explodia no cérebro. Talvez tenha adormecido, mas estava bem desperta quando o disco acabou a agulha ficou a raspar repetida na última espira do vinil.
A sala permanecia obscura e despojada. Pela frincha dos estores, havia sol lá fora, mas há muito que ela tinha desertado do mundo exterior. Agora ela estava ali, inteira e única, feita de sexo e de memórias, a ouvir repetidamente os discos que ele tinha deixado. Música de orquestra, era assim que se chamava. Música que eles dançavam no alpendre atrás da casa, aproveitando a última luz do dia. Ele dançava sem tocar o chão, leve como o voo tenso de uma asa, o abraço morno a rodeá-la como um casulo. Mas Fausto Papetti sempre tinha sido o preferido dela. Porque sabia que ele despia a camisa e entregava-lhe o peito largo como um trofeu que ela tivesse ganho. E que depois a despia até a brisa da tarde lhe arrepiar os minúsculos gomos da pele. E que o hálito dele eram palavras sussurradas numa voz rouca e macia. E os dedos dele eram polpas de frutos, e o corpo dela um largo pomar que ele sobrevoava rasando-lhe a copa miúda das árvores mais altas.
Mas o raspar da agulha na espira do disco não a deixava voltar ao torpor adormecido onde ele ainda se deitava, húmido e duro, ao seu lado. Ouvia-o arfar. Via-lhe a massa do ombro pelos olhos quase fechados. Uma gota de suor a escorrer pela fronte. As pálpebras cerradas. E pensava “como se estivesses morto e eu te tivesse então inteiro e sempre meu”.
Levantou-se e levantou a agulha do gira-discos, deixando o prato a rodar. Atormentava-a a imensa contradição de, agora que o tinha inteiro e sempre, só lhe conseguir sentir o cheiro e o sabor, quando punha o disco do Fausto Papetti a tocar , com o seu saxofone langoroso, êxitos de todo o mundo dedicados aos amantes.
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