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a magnólia pode ser uma árvore de fruto
rosas
innersmile
Dele sei duas datas, 1971 e 1999, que podem marcar o início e o fim de uma vida. Dele, sei um nome na capa de um livro: Daniel Faria. Mas os nomes nas capas dos livros são como camisas presas num fio a secar. Dele sei, porém, os poemas. Os versos como clarões, como filamentos de luz que nos agarram pelos colarinhos e nos puxam para as letras impressas das palavras, atrás de uma verdade que apenas se adivinha. Versos como "homens a abrir as mãos como livros". Poemas como estes, que aparecem no livro ‘Dos Líquidos’ (Ed. Quasi).


Neste lugar transitório mantém-me mendigo
Desviando-me de mim – não
Da tua mão. Dá-me como. Conduz-me
Para a esquerda e para a direita, roda-me sempre
Para a saída

Deixa-me ser a porta no eixo
Posta para trás pela mão de quem entra
Deixa-me ser o chão assiduamente

Quero ganhar a forma
Do degrau
A forma da mão que se abre quando nada tem
E quero a mão, no entanto. Interessam-me alguns instrumentos de posse
A língua para me calar
As rótulas, os calcanhares, os rins

O corpo inteiro, completo
Para morrer


~|~

Escrevo do lado mais invisível das imagens
Na parede de dentro da escrita e penso
Erguer à altura da visão o candeeiro
Branco da palavra com as mãos

Como a paveia atrás do segador
Vejo os pés descalços dos que correm
E escrevo para os que morrem sem nunca terem provado o pão
Grito-lhes: imaginai o que nunca tivestes nas mãos

Correi. Como o segador seguindo o segador
Numa ceifa terrestre, tombando. Digo:
Imaginai


~|~

Dou-te a minha ausência e a noite da escada
Que desceres para desmanchares os degraus

Dou-te o degrau que ninguém quer à minha beira
A minha mão para que possas decidir
A direcção em que devo morrer



_
[Há sinais de Daniel Faria na net, que uma pesquisa simples revelará. Como este]