August 19th, 2003

rosas

rostos

No espaço do mesmo telejornal, o mundo revela as suas faces. As mais tenebrosas, mas também as mais esperançadas.

De alguma forma, o atentado ao edifício da ONU em Bagdad, não surpreende. Visto daqui, o Iraque parece ser um barril de pólvora atado a uma bomba-relógio já activada. O esprectro do Vietname paira naturalmente sobre aquela ocupação disforme. Mas, apesar de tudo, a ONU ainda é o sinal de algum concerto no meio de todo o horror e de toda a loucura. E como o destino é irónico, as televisões que apanharam a explosão em directo, seguiam uma conferência de imprensa sobre o apoio alimentar às populações.
É impossível não ficar consternado (e chocado) com a morte de Sérgio Vieira de Mello. Porque, de certa forma, ele era um dos nossos. Falava a nossa lingua e participou, activa e positivamente, no processo que conduziu à independência de Timor. Porque era um homem jovem, e porque estava sempre ao dispôr de uma causa de que nunca desistiu. Mesmo quando essa causa parecia (e muitas vezes lhe deve ter parecido, não tenho dúvidas) muito improvável. Porque essa também pode ser uma definição de heroísmo: nunca desistir de acreditar que, no fim, o bem pode vencer.

Mas se o telejornal nos mostra o rosto horrendo do mundo, mostra-nos também a sua face mais luminosa e esperançada. O ano passado, ou há dois anos, quando houve terriveis cheias na Alemanha, os moçambicanos puseram em marcha movimentos de solidariedade a favor deaqueles que, em circuntâncias contrárias, os tinham ajudado. Acho até que falei disso aqui no innersmile. Pois bem, hoje o telejornal trouxe a notícia de que, mais uma Vez, Moçambique e o seu povo tem memória e gratidão. Desencadearam-se inúmeras campanhas de apoio às vítimas dos incêndios em... Portugal. E como os moçambicanos têm consciência de que não têm aqueles meios que normalmente nós dispomos lá em casa quando se trata de ajudar os outros (as roupas antigas, as mantas, os alimentos), ajudam da forma que podem: tentam reunir dinheiro para mandar para cá, para ajudar aqueles que ficaram sem nada. Eu não sei se isto é claro para muita gente, mas aqueles tipos não têm nada! Eles vivem num nível de pobreza que nós, mesmo com os exemplos que temos por cá de miséria, não somos capazes de imaginar. Há um ditado que diz que não há maior generosidade que a da viúva.
Caramba, se ao menos todas as coisas fossem assim tão simples e cristalinas.