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Apetece-me escrever sobre o caso de Maggiolo Gouveia, porque é um daqueles casos em relação aos quais tenho muitos sentimentos contraditórios. Mas a verdade é que também tenho esses sentimentos muito pouco claros, a precisar de um certa racionalização.
Muito brevemente, o tenente-coronel MG foi o último comandante da PSP em Timor, até Agosto de 1975. Quando eclodiu a guerra civil, com o armamento da UDT e a sua subsequente sublevação contra a Fretilin (que pretendia instaurar um regime comunista no território, à semelhança de resto do que aconteceu nos países africanos até então colónias portuguesas, e que chegou a proclamar a independência de Timor, nunca reconhecida por Portugal), MG fez uma proclamação via rádio, anunciando a sua deserção da exército português (que tinha retirado para a Ilha de Ataúro, e cuja passividade perante o avanço da Fretilin era sinal de uma certa cumplicidade) e apelando à adesão na UDT. Foi preso pela Fretilin nesse mês de Agosto, e, aparentemente, sujeito a torturas e tratamento humilhante e infame (ouvi um relato que testemunhava que MG esteve preso em cela aberta agrilhoado de pés e mãos, sujeito a todas as humilhações e sevícias que os passantes, nomeadamente aqueles que ele tinha prendido enquanto comandante da PSP, lhe quisessem infligir). Quando a Fretilin teve de recuar face a invasão indonésia, levou MG e outros prisioneiros para Aileu, onde MG acabou por ser fuzilado perante a necessidade de mais uma retirada.
Vinte e oito anos depois, o filho de MG foi a Timor, resgatou as ossadas do pai e alguns objectos pessoais, e MG vai ser hoje enterrado, em funeral com honras militares, com a presença do Ministro da Defesa e do CEME, honrado como o último soldado morto do império.

É uma história fascinante e, naturalmente, impressionante, daquelas em que a dimensão épica e romântica dos acontecimentos se cruza com a História e os seus ventos, e com o destino individual de pessoas reais, de famílias, de filhos e viúvas, de antigos guerrilheiros que hoje são a classe dominante de um país, enfim, com o destino de muita gente que ainda por aí (pelo mundo) anda.
É também uma história de circunstâncias, não nos podemos alhear dos condicionalismos próprios da época e do lugar. É fácil julgar, MG como os seus algozes, a esta distância, e depois de todo processo da luta de independência de Timor, e no meio de necessários processos de reconciliação.
Mas também é verdade que é nos momentos mais difíceis e complicados, que a verdadeira face dos homens se revela, a sua coragem como a sua capacidade de perdoar.

Infelizmente, à volta desta história há também algum aproveitamento político, nomeadamente da parte do Ministro da Defesa que vem, em versão amornada, homenagear o último soldado português tombado no combate contra o comunismo internacional. ‘Como se’, naturalmente. E sem atentar, ou melhor, atentando mas com aquela superficialidade moral que é seu apanágio, que ao homenagear o último soldado português morto, está também a homenagear alguém que, para todos os efeitos, desertou do exército português. Em nome dos princípios, claro, mas também não foi por cobardia que muitos soldados e oficiais desertaram das forças armadas durante a guerra colonial e não se vê afã do Ministro da Defesa em homenagear esses outros heróis.

MG foi herói e mártir do processo de descolonização. Foi herói e mártir da nossa história. Não sei se foi mais herói ou mais mártir. Nem isso interessa. Acho que só nos faz bem a nós portugueses de hoje, conhecer histórias como a de MG e discutir, se for preciso, estas histórias, porque ao fazê-lo estamos a aprender história, mas estamos, sobretudo, a aprender a lidar sem complexos, sem traumas e sem vergonhas, com a nossa história.

Na Publica de ontem, Domingo, tal como nas edições diárias ao longo dos últimos dias, o Publico tem dado merecido destaque à história de MG; não é difícil encontrar, no site do jornal, mais e melhor informação sobre este caso.
O retorta também tem aqui uma entrada sobre este tema.
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