August 9th, 2003

rosas

proposição

Tem-me acontecido muito: "conviver" durante muitos anos com um poeta sem verdadeiramente o ouvir, e de repente tudo se abrir como a flor do cacto que amadurece durante semanas para desabrochar completa e inteiramente durante uma madrugada.
Aconteceu-me outra vez, recentemente, com Rui Knopfli. Conheço a poesia de RK desde, pelo menos, 1974, quando, a seguir ao 25 de Abril, o seu livro Mangas Verdes Com Sal foi uma das bússulas da aprendizagem de uma identidade nacional. Fui comprando os seus livros na estrada do tempo, O Escriba Acocorado, A Ilha De Próspero (que ofereci e depois tirei, contrariando aquele preceito infantil que diz que "quam dá e tira..."), e O Monhé Das Cobras. Lembro-me de, along the way, ler uma notável entrevista ao poeta pelo Francisco José Viegas na Ler.
Entretanto, fui a Moçambique, e, no regresso, peguei, inevitavelmente, na Ilha de Próspero. E de repente, tudo aquilo passou a fazer um sentido, a ser de uma clareza cristalina e meridiana, as palavras a encheram-se como as velas enfunadas do dhow, perfeitas e ancestrais como as conchas partidas da Praia das Chocas. Por altura da feira do livro de Coimbra, comprei o volume das poesia toda publicada pela Imprensa Nacional, e, desde aí, tem sido sempre um diálogo de cabotagem que me tem guiado ao longo dos meses deste ano. Dois mil e três, para mim, será, na poesia, o ano de Rui Knopfli.
Há raízes do fascinio que consigo identificar: o rigor geométrico e arquitectónico dos versos que escondem sempre uma emoção lírica e, muitas vezes, destroçada. A "ferida intransponível" da "extraterritorialidade" (a expressão é de FJV, numa entrada do Aviz dedicada a RK) que me tem ajudado muito a desenhar um rosto no espelho, ou mesmo apenas o uso dos versos como um mapa das estrelas. Mas, naturalmente, os mistérios do nosso amor por um poema, por um poeta, são sempre muito maiores dos que aquelas escassas faixas que conseguimos nomear.

Tudo isto para dizer o quê? Que, mais uma vez, descobri um caminho claro e natural, por onde, numa tarde de Verão, um tipo com a minha figura foi-se afastando a andar, até ser apenas o ponto de uma lembrança a piscar no horizonte.


PROPOSIÇÃO

Falo de outro país singular,
do perfume aloirado
e desse sabor a pão matinal.

Falo, na distância,
de distâncias quietas
recortadas no zumbido oloroso
de casuarinas azuis.

Falo de paisagens tenras
e sombrias, simétricas,
como parques e losangos.

Trago notícias de outro clima
pairando em luz e pólen,
em suaves ardências de especiaria.

Falo de outras vozes estranhas,
de murmúrios e ruídos indiscerníveis,
dos pequenos ardis do silêncio.

Falo de corpos ágeis
e elegantes como gráficos
que se armam sem impaciência.

Falo de um céu onde estrelas
serenas navegam presságios
e do refúgio em uma outra
dimensão inusitada.

Falo da beleza das coisas
simples e elementares:
a água, o pão e o vinho.

Iludindo o espanto de viver
falo de estar vivo
e desse outro inventado país,

singularmente habitado, fora
da possibilidade de habitação.