August 5th, 2003

rosas

aconteceu

Tenho de confessar que, enquanto espectador, não tenho tanta pena do final do programa Acontece, na rtp2. Era raríssimo ver o programa, e quando isso acontecia, era mesmo só por força do zapping.
Mas enquanto cidadão, e enquanto cidadão português, acho lastimável que isso tenha acontecido. Por três razões:
- porque a divulgação cultural devia ser obrigatória, e obrigatoriamente estimulada pelo Estado, num país com um grande nível de analfabetismo, e um enormíssimo nível de iliteracia;
- porque o Acontece era dos raros espaços da rtp (canais 1 e 2, claro, que são os canais de antena aberta) a dedicar atenção à cultura do países lusófonos, nomeadamente dos africanos, e é um bocado triste nós vivermos num país que se reclama orgulhoso do seu passado expansionista e que hoje, apenas duas ou três décadas depois do fim da presença em África, se interessa tão pouco, não só pelas culturas desses povos que foram e são irmãos, mas mesmo pela herança cultural riquíssima que nós deixámos espalhada pelo mundo, e que devia ser motivo de interesse de todos, portugueses e restantes cidadãos da lusofonia;
- porque me dava um orgulhozinho todo catita ser cidadão de um país que tinha um noticiário cultural diário na televisão, era daquelas coisas que podíamos dizer com orgulho aos estrangeiros, sobretudo àqueles que nos acham assim uma espécie de espanhóis empobrecidos.

Mas agora que escrevi isto, assalta-me uma dúvida: se eu próprio raramente assistia ao programa, terei legitimidade, apesar das razões apontadas, para lastimar que ele tenha sido retirado da emissão? Ou seja, ao assumir que eu não via o programa, não estarei a legitimar o seu final? É que me parece razoável exigir da rtp que passe programas que eu quero ver, mas que sentido fará exigir que passe programas que não vejo?