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agosto
rosas
innersmile
Noite de insónia: o calor, o café, as melgas, o desassossego. Claro que aproveitei e idealizei imensas entradas aqui para o Livejournal. Claro que aquela meia-hora que dormi antes do despertador tocar, varreu piedosamente todas essas entradas imaginadas.

No meio das andanças nocturnas vi um documentário de origem espanhola na sic.notícias, penso que no Toda A Verdade, sobre doenças raras, ou melhor, a vida de pessoas, sobretudo crianças, que sofrem de doenças raras. Casos impressionantes, que, se calhar, também contribuíram para a vigília: nunca podemos sair incólumes destes olhares magoados para as curvas mais sofridas da vida. Entre os casos apresentados, o do Daniel, que tem catorze anos e é fã do Barcelona. Como não vi o princípio de filme, não percebi que tipo de doença tem o Daniel, mas é qualquer coisa neurológica, que o vai incapacitando mais à medida que cresce, e que lhe provoca acessos de epilepsia ou qualquer coisa parecida com epilepsia. Mas o que vem aqui para o caso, é que o Daniel é rodeado de um círculo de amor, respeito e dignidade, que ultrapassa o horizonte baixo e curto dos nossos quotidianos urgentes e egoístas. O Daniel, os pais, que conseguem ultrapassar os limites insuportáveis da dor e do medo, e o irmão mais novo, que partilha a fúria futebolística do irmão, e com quem estabelece um admirável e subtil jogo de protecção em que nunca se torna explícito, nem para eles próprios, quem protege quem, transmitem uma tranquilidade e uma confiança absolutamente excepcionais. O ar tranquilo do Daniel, o seu sobrolho cerrado, o ar simultaneamente ausente e concentrado, parecem conter uma sabedoria que a nós, comuns mortais da dita normalidade, nos escapa. Como se aquilo que é essencial na vida fosse apenas revelado nos limites mais extremos e radiais das nossas existências. Mesmo, ou sobretudo, os mais dolorosos e angustiantes.

Antes disso, e enquanto esperava pelo episódio de 24, uma reportagem na rtp1, que também já só apanhei pela metade, sobre transexuais. Os desvios à norma social em termos de sexualidade, são feridas enormes que as sociedades impõem aos indivíduos. É verdadeiramente incrível como as sociedades actuais, estas nossas sociedades ocidentais, bem-pensantes e politicamente correctas, aceitam e respeitam a diferença em muitos domínios, sendo que os desvios à norma sexual são dos que mais criam dificuldades e reacções negativas. Realmente, pelo sexo morre o homem, e o terror profundo e subterrâneo que os desvios à norma sexual produzem na generalidade (dita normal) dos indivíduos, deve ser tão poderoso, que explica, pelo medo, esse tipo de reacções adversas. Medo, note-se, não dos outros, mas de nós próprios, medo da ameaça que esses desvios devem causar à nossa determinação pela sobrevivência da espécie. Divago, claro, mas suponho que tem de ser qualquer coisa assim muito poderosa e do domínio daquilo que no homem é mais profundo e involuntário, para explicar o pânico da normalidade face à “ameaça” que constitui o desvio.

A noite parece ter dado o tom soturno a esta entrada. Mas, caramba!, Agosto chegou. Se o meu ano fosse um histograma, a coluna do mês de Agosto era a mais alta de todas. Não por causa das férias: não costumo fazer férias neste mês, e, este ano, mais uma vez, não as faço. Mas porque esta enorme sequência de dias ardentes e despovoados, me faz lembrar uma imensa jibóia, pachorrenta e letal, abandonada às longas e intermináveis horas da digestão. Até aqui o ano foi crescendo devagar e incerto. Daqui para a frente, correrá célere para o seu fim. Mas Agosto não. Agosto fica assim, suspenso, plano fixo, a reverberar de azul e ouro. Um mês que, literalmente, nos entra na pele, nos queima e abrasa, por vezes para além de toda a comodidade e bem-estar. Os corpos oferecendo-se aos olhos alheios como uma dádiva. As trocas. As promessas. Inconsequências. Canções. Gelo a tilintar em copos fumados de condensação. Esplanadas. Lagartixas nas pedras quentes. Longo, demorado, lento. Esplendor.