July 30th, 2003

rosas

com Granada e o Escurial

Não ponho esperança em mais nada.
E se puser
Há-de ser ambição tão desmedida
Que não me caiba sequer
No que me resta de vida.
Ambição tão irreal,
Tão paranóica, tamanha
Como a grandeza de Espanha
Com Granada e o Escurial.
Porque esta esperança que ponho
Em ver-te sair um dia
Da verdade para o sonho,
É como ser-se feitor
Dalguma herdade cansada:
À terra, dá-se o melhor,
A terra não nos dá nada.


- Reinaldo Ferreira


O innersmile faz hoje dois anos!
Quando, no universo dos blogs da moda, a veterania se mede em meia-dúzia de meses (ou nem tanto), é obra! E foram dois anos de escrita muito regular, quase quotidiana, mesmo nas ocasiões em que não tive computador à mão.

O Livejournal deu-me coisas de que não estava à espera: amigos. Os que estão na lista de amigos. Aqueles de quem, ao longo dos últimos meses, me fui aproximando no sentido físico do termo, e que hoje são, com ou sem Livejournal, amigos para a vida (amigos NA vida). Aqueles que escrevem e fotografam e cantam admiravelmente, e que, mais do que me darem prazer, deram-me muitas vezes incentivo e inspiração. Aqueles, do outro lado do mar, que falam a mesma língua e, ensinou-me o Livejournal, pensam e sentem (e lêem e escrevem) da mesma maneira.

Também me deu coisas de que eu estava à espera: vontade de escrever, a presença de outro que vai lendo o que escrevemos. A certeza de que sem os outros, sem a sua presença ainda que virtual, e ainda que incerta, sem os seus comentários e as reacções, mesmo sem os seus silêncios que vamos aprendendo a conhecer e descodificar, as palavras claro que ainda continuam a fazer sentido, nomeá-las é que pode parecer uma certa inutilidade.

Mas também houve coisas que o Livejournal não me deu, e que, se calhar, eu estava à espera. Não vou falar isso por pudor, para não transformar isto num exercício pueril de confessionalismo. Digamos apenas que não me deu liberdade, pelo menos aquela liberdade que eu sinto intimamente que me falta para poder ser inteiro e feliz. Apesar de me ter dados aproximações, graus. Por outro lado, não quebrou um certo círculo de solidão em que estou cada vez mais embrenhado. Há aquela frase famosa de Santa Teresa de Ávila que diz que mais lágrimas foram derramadas por preces atendidas do que pelas não atendidas. A solidão sempre foi uma coisa que eu desejei e desejo, mas por vezes não consigo deixar de a sentir como uma prisão deserta e gelada. No entanto, e mais do que se calhar eu merecia, muitas vezes senti o sabor doce da companhia, da solidão acompanhada.

Dificilmente eu seria capaz de abdicar do Livejournal. Quer dizer, claro que seria perfeitamente capaz de viver sem ele, não é de modo nenhum uma dependência, uma necessidade absoluta, nem é isso que está em causa. Mas a verdade é que já faz tanto parte de mim que seria uma mágoa, ou em todo o caso uma violência, deixar isto.

No livro da Ana Zanatti que eu li há pouco tempo, há lá pelo meio uma frase que diz que "todos têm um momento na vida em que a porta certa se abre". Se mais uma vez constato que ainda não desta que encontrei a "porta certa" (e sem perder a lucidez de saber que possivelmente nunca a vou encontrar, porque ela não existe, ou porque eu não a procuro nos sítios certos), de igual forma é verdade que também ainda não foi desta que perdi a esperança de a encontrar.