July 24th, 2003

rosas

dói pra fora na paisagem

Talvez acabe por transcrever aqui ‘todas’ as letras de todas as canções do disco da Elza Soares. Não fazia mais que a minha obrigação, aliás!
Não sou grande expert em ciúme, não é daquelas coisas que me consome, não é um dos abismos da minha alma (mas não é por falta de lugar para abismos, lá isso não!)
O Caetano Veloso é, além de um músico com um raro sentido da modernidade, e um melodista exímio, um escritor de palavras para canções sublime e único. Mas mesmo para alguém com um nível tão elevado, as palavras esta canção são verdadeiramente excepcionais. Há aqui verticalidade, aprumo, arquitectura, “fisicalidade”. Quase como se as palavras, o sentido delas, o seu conceito, a ideia que as insufla de vida, fossem um edifício, um prédio novo que foi construído e passa a dar sentido e existência a um quarteirão da cidade.
Claro que, depois, isto dito na voz da Elza Soares incendeia-se, pega fogo. Um edifício em chamas (“uma estátua de ferro a arder”, como na canção, também ela superior, do José Afonso)

Chama-se

DOR DE COTOVELO

o ciúme dói nos cotovelos
na raiz dos cabelos
gela a sola dos pés
faz os músculos ficarem moles
e o estômago vão
e sem fome

dói da flor da pele ao pó do osso
rói do cóccix até o pescoço

acende uma luz branca em seu umbigo
você ama o inimigo
e se torna inimigo do amor
o ciúme dói do leito à margem
dói pra fora na paisagem
arde ao sol do fim do dia

corre pelas veias na ramagem
atravessa a voz e a melodia


A sério, é de chorar, e chorar por mais. Aquele “dói da flor da pele ao pó do osso” fica-nos assim a formigar na carne. E quando se diz “o ciúme dói do leito à margem / dói pra fora na paisagem / arde ao sol do fim do dia”, o ar e os sons ficam cá dentro, a arder-nos dentro da boca em lume brando.