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leCarré
rosas
innersmile
A política inglesa tem essa característica de, mesmo quando é mais sórdida e tenebrosa, parecer sempre um romance de John LeCarré. A história em torno da morte de David Kelly, e que tem como principais protagonistas visíveis, o Ministério da Defesa de Tony Blair e a BBC, é exemplar, uma tragédia perfeita e muito bem condimentada e doseada, um daqueles casos em que tudo parece demasiado perfeito para ser verdade, em que a realidade ultrapassa a ficção. Nada de felgueirices e guerrinhas de alecrim e manjerona entre juizes e políticos de meia-tigela. Aquilo passa-se tudo ao nível da estratosfera, e atinge o cerne do que é a verdadeira actividade política, do que é o serviço e o interesse público, do que é essencial na decisão de um político, se a verdade se a eficácia. E atinge como um balão cheio de tinta um político como Tony Blair, que sempre fez da credibilidade o seu principal trunfo. O momento na conferência de imprensa no Japão em que um jornalista perguntou ao Primeiro-Ministro se ele tinha as mãos sujas de sangue e se se ia demitir, parecia uma aqueles momentos intensos de silêncio e tensão que só os filmes são capazes de encenar.

Aparentemente (sim, que neste formidável jogo de sombras, as aparências são a clareza possível), a BBC apresentou uma reportagem em finais de Maio, em que citava um alto funcionário para garantir que as provas de que o Iraque possuía armas de destruição maciça, particularmente biológicas, tinham sido muito exageradas pelo governo inglês de forma a justificar, junto da opinião pública, a participação na guerra. David Kelly informou os seus superiores de que tinha tido contacto um jornalista da BBC. Aparentemente, o MoD dispôs-se a confirmar, perante uma lista de suspeitos autores da fuga apresentada pelos jornalistas, quem teria sido o seu autor. A BBC, antes de 18 de Julho, nunca confirmou ser Kelly o seu informador. Kelly, dois ou três dias antes de ir dar o seu passeio pelo bosque, respondeu a uma comissão de inquérito parlamentar, que não tinha sido ele a passar as informações aos jornalistas. Depois de se confirmar a sua morte, a BBC divulgou que David Kelly tinha sido efectivamente o seu informador. O pormenor de saber quem foi responsável pela “fuga” para os media de que Kelly tinha sido o contacto da BBC é fundamental porque, aparentemente, terá sido a pressão dos media que levou Kelly ao suicídio. Tal como e importante saber o alcance dessas informações, perante a hipótese de os próprios jornalistas da BBC terem exagerado (“sexed up” é a expressão utilizada) as informações para darem mais ênfase às suas críticas a Blair.

Mas tudo está aqui em causa. Desde saber se o governo inglês mentiu descaradamente à opinião pública para justificar a participação na guerra, até saber se efectivamente David Kelly se suicidou, e, mesmo que se tenha tratado de suicídio, quem foram os responsáveis ‘morais’ por esse acto. E, pelo meio, quais foram os papeis desempenhados por destacados elementos do governo de Blair, e qual o papel dos jornalistas da BBC, e quais os limites à sua actividade. E, finalmente, qual o papel que o próprio primeiro-ministro inglês desempenhou em toda esta trama, e qual o seu nível de envolvimento e responsabilidade. Só em relação a uma coisa não aparecem existir grandes dúvidas: a carreira de Tony Blair, um dos políticos mais brilhantes do nosso tempo, chegou, ainda que a prazo, ao fim.

Três links importantes para aprofundar o assunto: o Guardian, a BBC, e o blog de Andrew Sullivan.
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