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flor também é ferida aberta
rosas
innersmile
Há discos de que começamos a gostar ainda antes de ouvirmos uma única das suas digitais 'espiras'. Desde que a vi num programa nocturno qualquer da GNT (talvez o Altas Horas), fiquei a arder de ansiedade para ouvir Do Cóccix Até Ao Pescoço, da Elza Soares. E desde esse dia (desde essa noite), mesmo sem ter ouvido mais do que ouvi então, comecei a desenvolver uma 'relação' com ES e com o seu disco. Acho que nunca mais entrei numa loja de discos sem rotinizar uma passagem pelos escaparates de música brasileira, na letra E. Ainda pensei encomendar, ou pedir a alguém que mo enviasse do Brasil, mas decidi esperar com a paciência dos amantes obstinados. Eu sabia que a hora iria chegar, e a passagem do tempo ao invés de diminuir o entusiasmo, só aumentava a vontade.
"Eis o momento longamente esperado" (isto é um verso de um poema que vem da minha adolescência). Comprei finalmente o disco e é quase inacreditável como ele ainda consegue ser melhor do que as minhas mais elevadas expectativas. É um disco pessoalíssimo, um retrato íntimo da cantora, e ao mesmo tempo um objecto do tempo, actual e moderno. Musicalmente, o disco faz a ponte entre o tradicional e o moderno, com um convívio feliz de pandeiros e dj’s, sambas, tangos, os funks endiabrados de Carlinhos Brown e até uma versão, em dueto com Chico Buarque, de Let’s Do It (Let’s Fall in Love) do Cole Porter! Não sei se as canções, ou parte delas pelo menos, foram escritas para a ES, mas se não foram é como se tivessem sido, de tal forma a vestem e ela as veste. Caramba, até uma canção difícil como Haiti, do Caetano Veloso e do Gil, parece que a estamos a ouvir pela primeira vez. Há momentos sublimes neste disco: a faixa de abertura, Dura na Queda, do Chico Buarque (que foi escrita para ES numa altura em que ela deu uma queda de um palco durante um concerto), a Dor de Cotovelo, do Caetano, que é um abuso, uma coisa assim para lá das palavras, Bambino que é uma coisa linda e ternurenta, um poema de amor que é daquelas coisas que à primeira audição parece que já está alojada cá dentro desde sempre, a Flores Horizontais... E os 7 minutos mudos e engasgados e gloriosos de Quebra Lá Que Eu Quebro Cá, em que a voz da ES, em improviso e acompanhada apenas pelo pandeiro, revisita uma série de sambas numa espécie de autobiografia ao mesmo tempo alegre e triste. É isso, é um disco em que os sentimentos, todos e sobretudo aqueles que mais se opõem, estão presentes em cada momento. Não conheço quase nada da história pessoal da ES, mas nota-se que houve ali muito tropeção, muita queda (lá está: 'dura na queda'!), muita asneira, muito disparate, muito risco, muita má sorte e muita falta de juízo. Como convém, naturalmente.
É um disco único, digno de uma verdadeira diva, daquelas que atravessam o tempo como se o tempo não as atravessasse a elas. Um disco que respira 'vida' por todo o lado. A sério, a Elza Soares devia ser canonizada (em vida, para ser melhor para nós), e este disco as suas Escrituras.


"perdida na avenida
canta seu enredo
fora do carnaval
perdeu a saia
perdeu emprego
desfila natural
esquinas mil buzinas
imagina orquestras
samba no chafariz
viva a folia
a dor não presta
felicidade sim

bambeia bamboleia
é dura na queda
custa a cair em si
largou família
bebeu veneno
e vai morrer de rir

vagueia devaneia já apanhou à beça
mas pra quem sabe olhar
a flor também é ferida aberta
e não se vê chorar

o sol ensolarará a estrada dela
a lua alumiará o mar
a vida é bela, o sol, a estrada amarela
e as ondas, as ondas, as ondas, as ondas"

(- Dura Na Queda, de Chico Buarque)