July 20th, 2003

rosas

dois livros

Acabei de ler dois livros que têm algumas coisas em comum: são ambos escritos em português, por mulheres, e em ambos perpassam relações homossexuais como tema e/ou motor da acção.

Um deles é da Ana Zanatti, intitula-se 'Os Sinais do Medo', e foi publicado recentemente pela Dom Quixote (que, destaque-se, tem editado ultimamente alguns livros de autores portugueses em que a homossexualidade é tema). É um livro que se situa ‘ali’ na fronteira da chamada literatura light, que se lê muito bem, mas é, do ponto de vista literário, um pouco frágil. O outro livro chama-se 'Nas Tuas Mãos', é da Inês Pedrosa, é de 1997, e eu li-o na edição distribuída pela revista Visão. Aliás, foi uma coincidência engraçada: no dia em que eu li, na edição .pdf do jornal El Gebete, divulgada no blog do Miguel Vale de Almeida um depoimento da IP a falar do livro, cujo tema desconhecia, vi-o à venda na referida colecção da Visão. O livro de Pedrosa é uma obra com os dois pés bem dentro da literatura, com um estilo epigramático onde se reconhece uma certa dívida a Agustina Bessa-Luís, com densidade literária e psicológica, com ambições.

Mas enquanto o livro de Zanatti, apesar de frágil do ponto de vista literário, é seguro na análise que faz do universo e das relações homossexuais, no livro de Pedrosa a homossexualidade é quase incidental, um mero factor romanesco, ainda que decisivo e determinante do ponto de vista do romance.

Em 'Os Sinais do Medo', as situações referidas, os sentimentos, as angústias, as pequenas conquistas, as cautelas na aproximação, as formas muito particulares de sedução, contêm uma dose de verdade e honestidade muito grande, dando ao livro um carácter muito genuíno. Será, sem dúvida, aquilo que se poderá denominar por um romance gay, na medida em que a homossexualidade e os homossexuais são os próprios temas que interessa explorar, e nessa medida lê-lo é mais do que um experiência de literatura, tem o valor de um encontro humano, de um confronto, um exercício de reconhecimento. Claro que não se pode daqui inferir que o universo de leitores a atingir pelo livro se restringe aos homossexuais, o que seria um absurdo tão grande como restringir os leitores dos livros em função da nacionalidade do seu autor, ou da sua raça ou do seu credo religioso.

Quanto a 'Nas Tuas Mãos', como já disse, a homossexualidade é uma questão de enredo, importante é certo, mas sempre um pouco marginal. Aliás, até pela forma narrativa como a relação homossexual é contada, sempre de um ponto de vista exterior, necessariamente exterior, de resto, uma vez que quem no-la narra é precisamente quem fica de fora dessa relação. Por isso a relação entre António e Pedro nunca ganha densidade, nunca é desenvolvida como "matéria psicológica". Num outro aspecto essencial da acção, que é o do racismo e das relações inter-raciais, também me parece que o livro nunca consegue descolar do meramente romanesco (e nem a vaga suspeita que há um substracto biográfico no livro, contraria esta ideia). Dizer isto, por seu lado, não equivale a negar ao livro o estofo literário que inegavelmente possui, nem sequer a muita vida que perpassa pelas suas páginas.

O que me chamou a atenção é a forma quase simétrica como estes dois livros se situam cada um em relação ao outro, quase como se as fraquezas de cada um deles fossem as virtudes do outro, onde cada um deles falha, o outro vence.