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rosas
innersmile
A minha avó morreu no Sábado, dia 3 de Abril, às 10,30 da manhã.
A morte dos velhos é uma coisa estranha. Não é violenta e chocante como a morte de uma pessoa nova. A morte de um velho é uma coisa triste, mansa, nostálgica. É como se, com o velho, morresse parte da nossa memória, da nossa história, e, nessa medida, é como se uma parte de nós morresse também. Não é uma dor alucinante e insuportável. É uma dor de saudade, como se deixássemos a nossa terra, sabendo que nunca mais poderemos regressar. 'Lembras-te daquela rua, da casa daquela rua?' A memória esforça-se por recordar, mas dói não podermos ir ao local comprovar que a casa e a rua são mesmo aquelas em que pensávamos. É uma dor de olhos molhados, e não propriamente de choro. É uma dor de alegrias, de anedotas. De recordações doces.
Há, na morte dos velhos, algum alívio. Por verificarmos que a lei da vida funciona. Que é verdade o que dizem das estações, que a primavera vem antes e depois do inverno. É por isso que a dor da perda de um velho é também reconfortante. Como se alguém dissesse: 'Que bom, morreu velho. A vida foi generosa'.
Eu invejo a vida da minha avó. A minha avó teve filhos e netos e bisnetos. A minha avó teve um homem a quem seguramente amou e por quem seguramente foi amada. A minha avó conduziu automóveis e fez comida indiana. Tratou as filhas doentes e, em momentos de aflição, cuidou e protegeu os netos. A minha avó escreveu cartas muito importantes que mantiveram a família toda ligada por fios invisíveis. E fez trabalhos em linha que foram úteis a todas as pessoas a quem ela ofereceu esses trabalhos. E sabia falar a lingua landim, que aprendeu, quando era criança, em África, com as outras crianças, e que nunca mais esqueceu. A minha avó foi a última pessoa que me fez uma coisa que, tenho a certeza, mais ninguém me vai voltar a fazer: pôr elásticos novos nas cuecas. Além disso, a minha avó tinha sentido de humor, e dizia piadas certeiras e bem achadas. Mas de tudo o que a minha avó tinha e sabia, é da sua memória que eu vou sentir mais a falta. Vai ser difícil deixar de dizer, depois de alguma teima: "Deixa lá, vamos perguntar à avó".

(6.Abril.93)