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siboney
rosas
innersmile
Uma noite estava eu a ver na BBC mais uma edição do Jools Holland, quando apareceu um velhinho muito velhinho a tocar umas pianadas que eram uma mistura de jazz com música caribenha, daquelas coisas que identificamos logo com a América Equatorial. Tocou, com uns dedos secos e retorcidos pelas artroses que quase não tocavam o teclado, o Siboney. Como nunca se percebe o que o Jools diz, e nessa série não passava legenda com o nome dos artistas, tive de ficar muito atento ao genérico final para saber de quem se tratava. Decorei o nome. No dia seguinte, ou poucos dias depois, encontrei o cd por acaso aí numa das lojas de discos de Coimbra. Achei que era um milagre, daqueles golpes de sorte que às vezes me parecem acontecer e que fazem com que eu nunca diga mal da vida.
O pianista era o Rubén González, e foi o meu primeiro contacto com o que eu viria mais tarde a saber que era o projecto Buena Vista Social Club. Mais tarde, quando estive nos EUA, comprei o álbum “central” do projecto BVSC, e, já de regresso, comprei o primeiro do Ibrahim Ferrer, o segundo do Rubén González, e um do Compay Segundo, daqueles cds já meio pirateados que apareceram a aproveitar a onda de sucesso de BVSC. Entretanto, já tinha aparecido o filme do Wenders, que, mais do que uma homenagem, era um puro festival de ternura e maravilhamento. Como não há amor como o primeiro, sempre tive uma preferência pelo RG, e o disco Introducing...RG continua a ser aquele que mais oiço. A maneira aérea e fluida como aquele tipo toca, o ar jazzy da coisa, no swing e na improvisação, e o modo como aquilo tudo se embrulha nos boleros, nos sons, nos danzóns, nunca me parou de encantar.
Mas Compay Segundo sempre foi o incontestável símbolo de BVSC. Tinha aquele ar transgressor e ao mesmo tempo sereno, galhofão, boémio e sensual, que de alguma forma ligamos ao Caribe.
E penso que ninguém ficou imune ao fenómeno BVSC. Mesmo aquele pessoal assim mais elitista, que nunca alinha em modas pelo facto de serem modas. Toda a gente se comoveu com a história daqueles tipos que vinham de outra época e que resistiram numa espécie de quotidiano mais ou menos apagado e “funcionário”, a anos de silêncio, sem nunca perderem o espírito da música.
Por isto tudo concordo com o guil quando ele fala numa certa sensação de vazio, com a morte de Compay Segundo. Porque nos sentimos sempre um pouco esvaziados quando é a nossa ternura que sente a perda. Porque tivemos todos oportunidade de assistir, de ver, de partilhar, não só um caso emocionante de resistência, mas de resistência da arte, da alegria, do gozo milagroso da música. Porque todo o projecto BVSC foi envolvido por um esplendor, manso, terno e inocente, que eu sempre associo à sequência do filme de Wenders quando os músicos chegam a Nova Iorque e caminham deslumbrados pelas ruas, com os olhos lá em cima, nas luzes dos arranha-céus. Porque há a música, que é muito boa, e além disso há aquelas almas, a história pessoal daquelas pessoas, aquelas biografias extraordinárias.

A música é uma linguagem abstracta, e é isso que a torna tão especial, tão única, tão, como dizem os espanhóis, “rara”. Porque quando ouvimos música, estamos a usar uma linguagem que não é aquela que usamos quotidianamente, aquela que dominamos quando precisamos de comunicar com os outros ou apenas quando nos reflectimos e sentimos a nós próprios. A música, por isso, abre caminhos, descobre em nós recantos que frequentamos raramente, sentimentos e emoções que não são aqueles que usamos no nosso comércio diário e normal. Mas quando eu ouço o Rubén González, como estou a ouvir agora, a tocar o Siboney, não consigo abstrair (lá está) daquelas imagens do filme de Wenders em que o RG toca o acompanhamento para uma aula de ballet e ginástica num qualquer salão excessivo e decadente de Havana.
Nem, já agora, daquela vez que vi essa sequência do filme contigo a dares-me o braço.