July 7th, 2003

rosas

Phone Booth + My Fair Lady

Fim-de-semana dominado pelo concerto do Lou Reed, mas teve outros acontecimentos. Ontem fui ver a produção do Filipe LaFeria para o musical My Fair Lady, e gostei bastante. A adaptação do texto pareceu-me conseguida , as canções resultavam bem em português, os meios cénicos bastante desenvolvidos e sempre ao serviço da encenação, o palco sempre cheio, o que nos números em que entram muitos personagens é importante, a encenação simples, mas sempre a apostar nas virtudes da própria peça, bom ritmo. Interpretações em conseguidas, sobretudo as dos protagonistas, com a dose de interacção com o público q.b. para este tipo de espectáculo.

Na sexta-feira, fui ver o Phone Booth, do Joel Schumacher com o Colin Farrel. O filme merece algumas notas. A primeira para destacar a forma brilhante como o filme consegue, a partir de um dispositivo narrativo muito elementar, construir-se de forma coerente, gerindo a tensão nos momentos certos, levando-nos sempre para diante, através, como disse, de muitos poucos elementos. Notável, e prova de como o cinema norte-americano é maior num determinado tipo de filmes. Um tipo atende um telefone público e está na mira da arma de um sniper. Como a partir daqui se consegue construir um filme de 90 minutos, com vários personagens, contando a história e a ‘psicologia’ desses personagens, é realmente notável.
No entanto, é um filme de certo modo perigoso, sobretudo na forma como legitima a utilização da violência por parte do sniper. Não se percebe. Estamos sempre à espera de uma razão muito válida para aquele sniper ter escolhido ‘aquela’ pessoa, e a questão é que ela foi mesmo escolhida, não se trata de um transeunte ao acaso, e a verdade é que os motivos nunca são suficientemente sólidos para que se possa falar num justiceiro. Bom, isto em si não seria grave, se o sniper tivesse um perfil de psicopata Mas a verdade é que se o filme ainda, nos momentos iniciais, parece dar indicações disso, o final como que o redime em absoluto, e o legitima. Não me espantam, pois, algumas acusações de que o filme é fascista: não é aceitável, numa sociedade democrática, que alguém se proponha por sua própria iniciativa a limpar a sociedade de algumas das suas doenças mais perniciosas, nomeadamente aquelas que o próprio capitalismo mais suscita, ou seja, a da desumanização cínica das relações humanas em submissão ao primado da economia. O filme, ao não nos dar uma solução ‘policiária’ para o sniper, tipo estava ali a ajustar contas antigas, nem uma solução ‘psicológica’, tipo aquele é gajo é completamente doido e não vai parar de matar enquanto não for abatido, permite com efeito o tipo de leituras referido.

Comprei na FNAC o dvd de 24 Hour Party People. Apesar de estar cheio de sono, não resisti a vê-lo ontem à noite, quando cheguei de Lisboa. Gostei muito, como já estava à espera, claro, por o filme lançar luz sobre uma época e um tipo de música que me diz muito. Pena a porcaria da edição não trazer extra nenhum (selecção de capítulos e legendas on/off não é extra, ao contrário do que lhe chamam na contracapa do dvd; faz parte), tinha sido interessante incluírem um documentário dos inúmeros que há sobre aquelas pessoas, ou mesmo umas entrevistazinhas com os protagonistas. Mas enfim...