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era uma vez na américa - notas
rosas
innersmile
Sou o feliz proprietário de uma cópia em dvd de ‘Era Uma Vez Na América’. E, caramba!, que filme lindo. Melhor ainda do que eu me lembrava. Um mecanismo de relógio, ligeiro e complexo como o voo das aves.

Nunca DeNiro foi ou voltou a ser tão doce e visceral, tão profundo e brutal, nomeadamente quando, ou sobretudo quando, ‘Noodles’ é de uma crueldade sádica. Nem mesmo no Padrinho II, sobretudo porque no filme de Coppola era um homem com uma missão, com um objectivo e, apesar de tudo, com um código de conduta, enquanto aqui no filme de Leone é apenas uma alma danada, um anjo caído. Nunca James Wood foi tão tocado por uma centelha de fulgor e fatalismo ele que passou uma carreira a provar que há uma curta distância entre o génio e o desastre. Nunca os olhos de Elizabeth McGovern foram tão etéreos, tão transparentes, tão aquáticos, tão à beira de não serem olhos, mas uma neblina que reflecte o impossível lugar da beleza neste mundo.

A banda sonora, e não me refiro apenas ao score musical de Ennio Morricone que é um outro filme, um filme dentro do filme, verdadeiro 1+1=1, mas a toda a sonoplastia do filme, confere à narrativa um carácter polifónico, que ora acentua e acompanha a ena que se desenrola no plano, ora se afasta e foge, e transporta-nos para um outro fio narrativo, levando-nos mais à frente, para uma sequência que ainda está por vir, ou segura-nos a um ponto qualquer, cristalizando-o, enquanto o plano segue o seu curso. É um filme para ouvir tanto como para ver (esta era, de resto, uma das marcas do cinema de Leone).

O filme trata todos os seus fios narrativos com a ditadura de um manipulador de fantoches, e trata-nos a nós espectadores de uma forma totalitária, subjuga-nos à tirania do plano, ao férreo autoritarismo da sequência. “Ave Leone, morituri te salutam”, apetece dizer, de cada vez que Sergio Leone arranca para uma sequência inebriante, em que somos sacudidos e atirados como um reles par de meias para dentro do gigantesco e prateado tambor da máquina de lavar. Mas também não podemos dizer que este filme, ou que a sua narrativa, é gigantesca ou excessiva, porque o filme é percorrido por uma minudência, uma atenção obsessiva aos detalhes, aos pequenos, ínfimos, pormenores. Um filme que tem o rigor perfeito do milímetro, em vez da voraz desmesura do quilómetro.
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