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não digas o meu nome
rosas
innersmile
"Esquece que eu existo. Não digas o meu nome."



Foi isso que me disseste. E foi isso, e apenas isso que eu fiz: esqueci que existes e não pronuncio o teu nome. A única coisa que mas, é que não consigo esquecer o teu nome. É tudo e apenas o que me resta. Não tenho o teu rosto, não tenho o teu corpo, não tenho sequer a tua memória. Só tenho o teu nome.

Esquece que eu existo. É tudo o que me resta. O que ficou depois de teres partido. O que sobra das manhãs. Da ausência do teu braço junto ao meu, lado a lado, rua fora.

Restos. Ruínas. Rumores. Rasgões. Rituais. Risos.

Nardos sobre a tua mesa, sobre o aparador da sala, sobre o teu quarto vazio, onde ficou o televisor aceso a passar intermináveis sessões de concursos e galas de estações estrangeiras, enquanto tu, na cozinha, fumas um cigarro e eu visto a camisa já

A meio caminho de desaparecer. E só levo comigo o teu nome, mesmo o nada que era meu fica aqui nos teus lençóis, os livros que te emprestei, o disco que te ofereci porque me fizeste dançar toda a noite, e eu só levo comigo o teu

Nome.

Digo o teu nome, sim. Digo-o, e digo-o outra vez, e hei-de dizê-lo todos os dias, e hei-de dizê-lo depois, e ainda. E digo o teu nome a todas as pessoas que se cruzam comigo na rua. Digo o teu nome às pedras e aos animais. Digo o teu nome ao tapete de folhas que cobre as ruas no Outono. Digo o teu nome às luvas brancas dos polícias sinaleiros. Digo o teu nome ao rasto do avião que fica no céu a lembrar-me que tu já exististe, que foste um parêntesis, um espaço em branco entre outros espaços em branco. Digo o teu nome à espera que tu ainda permaneças a ele agarrado, digo o teu nome à roupa que ficou esquecida no tambor da máquina de lavar, digo o teu nome às notas que escreveste a lápis nas margens dos livros. Digo o teu nome aos lençóis, à fronha das almofadas, à lâmpada apagada do candeeiro da mesa de cabeceira, ao fio de baba que escorre da minha boca aberta adormecida, aos movimentos involuntários das pálpebras durante o sono profundo. Esqueço que tu existes, mas não me consigo esquecer do teu nome, e enquanto não o esquecer hei-de dizê-lo como se fosse fruta, como se o barco que sai do cais fosse o mesmo que regressará um dia, como se água passasse duas vezes por baixo da mesma ponte. E vejo claramente

O teu nome. E digo-o. É a única coisa que não me poderás levar.
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à sombra dos palmares
rosas
innersmile
"(...) Não sou daqui das praias da tristeza
Do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez minha beleza
E colocai-a
à sombra dos palmares.(...)"

- Natália Correia