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imperfeição
rosas
innersmile
"Uma pequena imperfeição é sempre tão sedutora, especialmente se sugere uma história – o vestígio quase imperceptível de uma cicatriz, um discretíssimo coxear. A taça do chá sem defeito é menos bela, ao fim e ao cabo, segundo os Japoneses, do que aquela que apresenta uma ligeira distorção na sua rotundidade, tal como uma lua cheia é menos bela do que uma meia-lua vislumbrada através de uma nuvem, e a cerejeira coberta de flores é menos bela do que uma cerejeira prestes a florir, e os seixos perfeitamente limpos são menos belos do que os seixos entre os quais crescem algumas flores emurchecidas."
- Robert Dessaix, Cartas de Veneza (Gótica)

Suponho que seja essa a diferença entre a perfeição e o erotismo. O corpo que guarda memória e cicatriz da passagem das horas, dos olhos do mundo.
A perfeição é fria e distante, é um sistema fechado. Atemoriza. A perfeição é de papel, e por isso não a conseguimos olhar nos olhos. Cega, mas não queima.
Mas é no corpo marcado pela imperfeição que moram as praias, que mora o tição da brasa incandescente, que mora o fulgor da saliva.
É no corpo que se abre ao mundo, que é por ele penetrado, que se rasga com o pão nosso de cada dia, e se levanta, e cai, e dorme à noite nas ruas, e encolhe-se ao frio e à chuva, e estende um braço que adormece por sobre um peito.
No corpo por onde o ar circula como se fosse vento.
No corpo que madura e apodrece.