June 20th, 2003

rosas

Adriana, Petra e outras coisas mais

Concerto da Adriana Calcanhotto, quarta-feira, em Coimbra. O Pavilhão da Académica confirmou aquilo que eu já suspeitava, ou seja, de que é um sítio completamente desadequado para concertos, com uma acústica péssima e com uma total falta de "ambiente". Ainda por cima a plateia, onde eu fiquei, estava cheia de tias loiras, daquelas que copiam o modelo 'cinha jardim', com as calças de ganga descaídas, as pulseiras e os anéis em "catadupla" (como dizia a outra) e o fedor pestilento a perfumaria Mars, penduradas, com um ar catatónico, em viris machos igualmente fedorentos de pantufa (ou lá o que é!) sem meias e gel na careca, e que chegam meia-hora atrasadas ao concerto porque acham que as pessoas "bem" chegam sempre atrasadas e nunca ninguém lhes disse que não!, só chegam atrasadas as pessoas que não tiveram educação quando eram pequeninas.
Mas pronto, a Adriana é um ser superior, e consegue fazer esquecer tudo isso! Foi um concerto "produzido" (ao contrário do anterior que eu tinha visto, do tour Público), com direcção musical arrojada, músicos competentes, cenário a remeter para o disco 'Cantada', movimentações de cena (o "jogo" entre Adriana e o Dé Palmeira sempre simples e muito bem-humorado, a dar um toque teatral às canções), e a sensibilidade e a inteligência da Adriana a tomar conta das canções.

Ontem fui à Póvoa, a uma daquelas celebrações familiares a que não se pode mesmo faltar. A parte má é que saí de Coimbra às onze e meia, cheguei lá à uma, o meu carro não tem ar condicionado, e eu tive de ir todo vestidinho. A parte boa é que se fosse Janeiro, estivessem três graus negativos, chuva torrencial e um nevoeiro cerrado, era pior!

Ontem à noite foi o concerto de despedida da dupla formada pela Petra e pelo Georgios. Nunca os vi a tocar ao vivo, e não me consigo perdoar por nunca ter feito aquele esforço suplementar para conseguir dar um salto a Lisboa numa noite de concerto. Mas tive o supremo gozo de ver uma gravação de um dos concertos sentado numa cadeira com o braço da menina enfiado no meu, o que, se não me redime por completo, pelo menos deu-me 'a taste of heaven'! A avaliar pelas reacções, o concerto de ontem deve ter sido memorável. Bom, resta-me sempre, para me consolar, aquela minha crença profunda e inabalável de que, na vida, o melhor ainda está sempre para vir!

Soube pelo retorta que o Francisco José Viegas tem um blog, o Aviz. O FJV é dos meus escritores favoritos, tanto na ficção (penso que li todos os livros dele, ou pelo menos, li todos os que me apareceram à frente), como na poesia, como no jornalismo (tenho de confessar que não sou leitor regular da Grande Reportagem, mas fui seu fervoroso adepto durante o tempo em que dirigiu a Ler; além disso fui sempre espectador dos seus programas de televisão, sobretudo aqueles que eram sobre livros), como, até, nalguma da 'geografia' do universo literário do FJV: a Irlanda, os Açores, e, mais recentemente, Moçambique (falta-me a Islândia, mas lá iremos). Vou ser fiel do Aviz, claro, como já sou do Abrupto e da Janela Indiscreta. É uma espécie de milagre, este que a internet possibilita, de acompanharmos mais de perto, quase como se partilhássemos (apesar de este "como" ser aqui sobretudo um comparativo, quase um símile!), os dias e a escrita daqueles que admiramos.
rosas

nobody's perfect

Duas coisas perturbaram a tranquilidade deste diário nas últimas semanas. A primeira foi uma resposta que, segundo me contaram, o Michel Foucault deu a uma jornalista, e que é qualquer coisa neste sentido: as palavras são como armas, e quando as estamos a dar aos outros, estamos a dar-lhes também armas que eles podem vir a utilizar contra nós. Que me contou isto, disse-me que se tinha lembrado desta frase do Foucault a propósito de um certo grau de exposição que eu por vezes assumo aqui no meu Livejournal. Entretanto, o José Pacheco Pereira, ao ensaiar uma taxinomia dos blogs, refere-se, entro da grande família dos blogs 'umbiguistas', àqueles onde se dilui, com consequências perversas, a linha que separa o público do privado.
Foram dois murros no estômago, ou melhor, e porque foram tão seguidos e articulados, uma combinação de directo e uppercut, que deixou o innersmile um bocado 'à banda', e logo numa altura em que eu tinha escrito um micro-conto a gabar a tranquila velhice e a serena segurança dos 'velhos' diários.
A frase do JPP foi muito certeira. Este Livejournal vive mesmo, alimenta-se, dessa ténue e difusa separação entre o público e o privado, sempre à procura daquilo que é mais íntimo e que, apesar disso, tem uma certa disponibilidade para a exposição, e que, por isso, parece fazer sentido tornar público. Às vezes, pode ser apenas a intimidade do quotidiano, ou uma mera opinião acerca de um filme ou de um livro, mas mesmo a entrada mais prosaica tenta sempre trazer agarrada à pele alguma carne. O innersmile não é um diário confessional, não é um jornal íntimo, mas para mim só faz sentido se for um espelho, um écran, um óculo, ainda que mais ou menos deformado e deformador, daquilo que eu sinto e vejo e penso, da minha osmose com a vida e com o mundo. Qualquer outra forma, outra maneira de vestir, não me serviria. Mas é um equilíbrio difícil de manter, é uma linha de água muito inconstante, e, claro, já por mais de uma vez se mostrou perversa. E não está afastada a hipótese de um dia destes 'isto' desabar tudo em cima de mim ou mesmo de outras pessoas, com consequências desagradáveis ou mesmo desastrosas.
A frase do Foucault que me disseram, tem tudo a ver com isso. É óbvio que há assuntos que eu não deveria falar aqui, ou dito de outro modo, há aspectos muito pessoais da minha vida que não deviam ter lugar num diário exposto e público como é o innersmile (e não tenho a pretensão de achar que há um auditório vasto para o que aqui vou registando, mas a verdade é que este tipo de preocupações só se me pôs quando comecei a constatar que havia pessoas a lerem 'isto' para além do círculo, apesar de tudo aconchegante, do pessoal da lista de amigos). Há um risco terrível na exposição, é claro, sobretudo quando mostramos coisas que ainda são maioritariamente consideradas como uma fraqueza, uma fragilidade ou, em todo o caso, com uma forte carga negativa e de algum modo penalizante. E mesmo que isso possa ser muito improvável, não é de todo impossível que dessa exposição possam resultar prejuízos, ou, para usar a expressão de JPP, perversidades. Mas há assuntos incómodos que nos devemos esforçar para que não se transformem em tabus, para que não se tornem numa limitação, numa diminuição. Eu preciso de uma certa 'liberdade de movimentos' para falar de certos assuntos, ou de certos aspectos das coisas (do quotidiano, dos filmes, dos livros), sem estar sempre com medo de que estou a revelar segredos, de que há pessoas que vão desconfiar. Assim, fica tudo mais claro. O tema foi posto à luz e, sobretudo, posto no seu devido lugar: é uma coisa importante, faz parte de mim, define quem eu sou, mas não ocupa toda a minha vida nem me define em absoluto e completo. Tem o seu sítio, o seu espaço, as suas implicações. E se eu quiser falar da importância que isso tem na minha perspectiva de determinado assunto, faço-o sem muito receio de estar a tocar numa coisa incómoda, e sem me condicionar muito por isso.
Bom, esta entrada não traz nada de substancialmente importante, mas eu estava mesmo a precisar de escrever sobre isto, de forma a clarificar o espírito e por em ordem a cabeça. De qualquer forma, o innersmile, mais coisa menos coisa, vai continuar a ser o que tem sido. Porque não consegue, não pode e não sabe ser de outra maneira. Quanto ao 'umbiguismo' de que fala JPP, ele é tão óbvio que se tornaria patético negar! Mas há coisas que este diário não é: não é um exercício de vaidade nem ,muito menos, de auto-complacência. E sendo naturalmente 'umbiguista', tenta apesar de tudo conseguir ver para lá das paredes do umbigo.

No final de "Some Like It Hot" (o melhor filme de sempre?), Joe/Josephine, Sugar Kane, Jerry/Daphne e Osgood fogem num bote do delírio caótico que ajudaram a criar, em direcção ao Iate de Osgood. É a hora da verdade: Joe já se revelou a Sugar Kane, que o aceita sem condições. Jerry argumenta com Osgood que Daphne não é mulher para ele; em desespero de causa, e depois de já ter usado todos os argumentos, Jerry grita-lhe: "but I’m a man", ao que Osgood responde com ar beatífico: "nobody’s perfect"!
Nobody’s perfect, com efeito. E por isso este livejournal continuará a esconder-se por detrás do sorriso interior de Innersmile.