June 12th, 2003

rosas

conto

CONTO COM ENDEREÇO, NATURALMENTE

Guil, lembras-te como antigamente (e repara como a palavra antigamente parece um pássaro moribundo que veio fazer o ninho na nossa boca) discutíamos o lugar que os nossos diários ocupavam no mundo? Antigamente (lá está o pássaro aninhado) os nossos diários eram jovens inquietos, procuravam uma morada, ansiavam por desconhecidos e curiosos pares de olhos, e consumiam-se febris por não saberem se os outros os observavam com amor ou com indiferença. Eram rebeldes os nossos jovens diários, questionavam-se em demasia, queriam tudo, e punham-se em causa desesperados por encontrar um lugar.
Hoje, os nossos diários são velhos conformados. Cada um na sua poltrona, o teu fuma finos cigarros que ele próprio amortalha nas noites em que as palavras lhe escasseiam, e o meu bebe chá verde por uma caneca de louça manchada pelo tempo. Repara como são serenos e sossegados. Mesmo no pino do Verão, os nossos diários acendem sempre a lareira porque dependem da brasa do borralho para lhes aquecer mais um poema, um relato inventado de uma imaginária viagem, ou mesmo, apenas para lhes iluminar o espanto de uma fotografia ou de uma frase de um livro. São diários caprichosos, porque chegaram àquela fase da vida (da vida deles, claro; ou será da morte?) em que, rabugentos, só fazem o que lhes apetece, mesmo quando, como tantas vezes acontece, não lhes apetece mais nada que não seja cabecearem sonolentos ao som da extraordinária melodia de uma sílaba.
Lembras-te, Guil, como antigamente (este pássaro deixa a boca cheia de penas) os nossos diários pareciam flores amarelas e azuis que cresciam com força para cima? Lembras-te como eles declinavam titubeantes a ingénua tabuada dos três, quatro ou cinco olhares que os desfolhavam na placidez de uma tecla anónima?
Agora, Guil, deixa-me dizer-te que os nossos diários estão velhos, são antigos (nunca viste um pássaro adormecer?). Já ninguém lhes toca, e eles parecem rejubilar com isso. Tremem das mãos, e tropeçam numa ou noutra palavra mais aguda ou saliente. Estão barrigudinhos e satisfeitos, os nossos velhos diários. "Satisfeitinhos da vida", como eles próprios seriam capazes de murmurar, com um sorriso malandro a descompor-lhes as rugas do papel. Estão redondos como os caracóis dos cabelos das raparigas que, por simpática compaixão ou por desafio prazenteiro, lhes afagam as calvas cabeças.
Anda, Guil, dá-lhes lá alpista. Que eles agora são já apenas pássaros de pena caduca, aninhados na boca de antigamente.
Lembras-te?