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heureusement dimanche...
rosas
innersmile
Não sei se consigo, ou posso, ou devo, escrever aqui tudo aquilo que senti, ou experimentei ou reflecti, no Domingo. Ainda está tudo um pouco desordenado no meu espírito,como as gambiarras de natal quando as desempacotamos em Dezembro e elas estão espalhadas num emaranhado pelo chão da sala, à espera que alguém as separe, ordene, e arrume no local certo da árvore, que ainda ninguém, nem elas próprias, sabe qual é.
Houve, naturalmente, coisas certas e simples: estar com os amigos de Lisboa começa a ganhar aquele sabor a reencontro que sempre nos embala quando bebemos um vinho antigo e excepcional.
Mas houve mais. A ida à Charneca da Gaivota, àquela casa alta e exposta de onde se vê o mar, o bosque e a cidade, e cujas janelas para dentro (da casa, de nós próprios) são ainda mais rasgadas do que as janelas que se abrem para fora. Conhecer o António, que é um daqueles anfitriões que domina com perfeição o dificílimo equilíbrio de dizer sempre o que pode e deve ser dito, nem mais nem menos.
A experiência dos quadros. Uma coisa é olharmos, numa aventura individual e íntima, para quadros expostos numa parede. Outra coisa completamente diferente é essa experiência pessoal ser acompanhada por uma "visita guiada" à história do quadro, ao lugar que o quadro, ‘aquele’ quadro, ocupa naquela casa, na vida daquela pessoa que o possui. Porque Ter em casa pintura, ou escultura, como Ter livros ou música, é sempre adicionar às nossas vidas o que esses objectos artísticos trazem com eles, é passarmos a incorporá-los na nossa maneira de olhar para o mundo, e de olhar para nós próprios. É sempre, também, acrescentar-lhes, torná-los outros, enriquecê-los com a espessura do nosso olhar.
E experiência da arte como uma coisa erótica, uma experiência sensorial. A textura da tinta num quadro é como uma pele ardente que tocamos com a polpa tremente dos dedos. A nervura arredondada das formas de uma escultura. E a experiência da arte como um lugar mítico, religioso, do encontro entre as almas, mesmo, e sobretudo, aquelas almas cujos corpos distantes não se podem tocar, nem sequer se vêem, nem, ao menos, suspeitam da existência um do outro.
Numa parede branca, dois quadros, de dois distintos artistas. Dois quadros muito potentes, qual deles o mais poderoso. Num deles, um aparente rigor formal, de esquadria cromática, deixa-se contaminar pela ancestral e livre sensualidade da curva. No outro, ao lado, um rosto conta-nos uma história longínqua e fatal, que, por sê-lo, permanece inacabado: o quadro e a história que ele encerra. De hoje em diante, acreditarei quando ouvir falar que é possível uma parede chorar.
Há hoje em dia uma certa arrogância, pelo menos nos países ricos como os desta pequena parte do mundo em que habitamos, de acharmos que já nascemos com o direito a que tudo de bom nos aconteça. É mentira. Devemos, temos a obrigação, de agradecer aquilo que nos dão, que os outros nos dão, porque ninguém ache ou presuma que tem coisas por direito divino, ou natural, tanto faz, que as coisas lhe caem ao colo como de geração espontânea. Nós só temos aquilo que os outros nos dão. E por isso devemo-nos mostrar agradecidos quando os outros nos dão coisas boas, coisas que nos enriquecem, que tornam a nossa vida, ou, o que é definitivamente a mesma coisa, uma tarde das nossas vidas, uma experiência rica, ‘acrescentada’, e inesquecível. Obrigado, por isso, amigos