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Chitsonzo & Wazimbo
rosas
innersmile
E pronto, de cada vez que eu acho que me está a passar a "moçambiquite", lá tenho uma retumbante recaída. E a de ontem foi mesmo particularmente retumbante! Noite de Moçambique no Festival José Afonso, com dois nomes importantes da música moçambicana: Roberto Chitsonzo e Wazimbo.
Chitsonzo foi membro destacado (e autor de grande parte do material) de um dos grupos míticos da música de Moçambique, os Ghorwane, que chegaram a editar um disco na Real Word, do Peter Gabriel, há 10 anos atrás, e hoje, entre outra actividade cívica, é deputado à Assembleia da República pelo partido Frelimo. Apresentou-se em trio, com guitarra e coro feminino de 2 vozes, e cantou, para além de canções próprias, poemas de Leite de Vasconcelos e Mia Couto. A voz de Chitsonzo é doce e macia como a luz do final da tarde, e cristalina e pura como a primeira luz da manhã, e as suas canções são baladas harmoniosas e intimistas, que, como quase todas as canções de Moçambique, celebram a festa do povo, ou denunciam as dificeís condições de vida que as pessoas têm de enfrentar. No final da sua actuação, Roberto Chitsonzo foi acompanhado pelos músicos de Wazimbo que fizeram a transição com 2 instrumentais fabulosos, daqueles que incendeiam o ar e os corpos, onde se destacou Nanando na guitarra solo, a fazer lembrar os grandes mestres da guitarra sul-africanos que se podem ouvir, por exemplo, a acompanhar Paul Simon nas suas experiências de e pós Graceland.
Wazimbo é outro dos nomes míticos da cena musical moçambicana, sendo considerado um dos Reis da Marrabenta, a música de dança do sul do país, e tendo participado nos dois mais importantes projectos "oficiais" ligados a este género de música na história cultural recente: o Grupo RM (de Rádio Moçambique) e a Marrabenta Orquestra Star de Moçambique. Estes dois grupos são importantes por terem recuperado e "reabilitado" a Marrabenta, que havia sido desacreditada no período imediatamente após a independência, por ter sido o símbolo "folclórico" da tradição moçambicana explorada "para turista ver" pelo regime colonial português. Com o Grupo RM e depois com a MOSM, a Marrabenta recuperou os seus foros de grande música de festa no sul de Moçambique, género nobre à volta do qual grupos como os Mabulu têm trabalhado tentando descobrir novos e inovadores percursos.
Wazimbo actuou durante perto de 2 horas, temas do quotidiano (a Sida, a falta de saneamento) e temas de pura festa, que levantaram, literalmente, a plateia, e a levaram até ao palco. E ver os moçambicanos a dançar é tão ou mais entusiasmante do que ouvi-los tocar!
A nota negativa do espectáculo(que também incluiu uma breve actuação do grupo vocal feminino Segue-me À Capela) foi para a escassez de público. A grande maioria da assistência era constituída por estudantes de Moçambique a estudar em Portugal, de Coimbra, claro, mas também de outras universidades (e a quem os artistas não se cansaram de dar "recados lá de casa", nomeadamente para se aplicarem nos estudos que o país está lá à espera e a precisar deles - a que os estudantes respondiam da plateia com uns irónicos "donza! donza!", estuda! estuda!), aquela meia-dúzia de estrangeiros que sempre aparece nesta coisas da folk e da world, e pouco mais, se tanto!, de uma dezena de tugas, incluindo os "oficiais" da C-2003 e do FJA. O espectáculo foi divulgado, há cartazes (lindos, enormes, vermelhos) do FJA espalhados por toda a cidade, vinha a notícia nos pasquins da terra. O que se passa é que a afluência a espectáculos funciona por modas, e o tugazito, e o coimbrinha em particular, raramente consegue ver para além dos muros altos do umbigo. E foi pena. Porque o ritmo da música, a candura e a simpatia, a entrega e a qualidade musical dos músicos, e a festa da plateia fizeram um espectáculo daqueles que nos arranca daqui da "vidinha" e nos leva para as paisagens amplas, quentes e azuis do 'lado debaixo do equador'!
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