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conto: padrão
rosas
innersmile
São dez da noite, e o mundo está vazio à nossa volta. É tardia, esta hora, na Ilha. Anoiteceu às seis, às oito as pessoas adormeciam no que sobra dos lancis, e agora restamos os dois, sozinhos. Sentados na base de um monumento que já ninguém sabe o quê ou quem homenageava. A razão de ser das coisas, nesta nave onde o tempo é espesso como o ar salgado, e escorre lento mas inexorável, perde-se quando parte a última memória. A escuridão é quase total. Sobrevive um ou outro pálido candeeiro, uma réstia de luz chega do jardim do hotel, e a brasa dos cigarros, que tu fumas um atrás do outro. Há uma urgência no modo como fumas que eu acho engraçada porque não a questiono.
E o silêncio. Ouves o silêncio como se fosse uma sinfonia? Não falamos, estamos os dois calados, não porque não haja nada a dizer, mas porque não há nada a dizer aqui, neste lugar. Ouve-se o restolhar das asas de um morcego a deslizar pelas folhas das copas frondosas das árvores, que nos cobrem como um céu. E por um momento, tudo o que importa é o ruído das asas do morcego, e a sua sombra baça e esvoaçante contra o escuro brilhante das folhas. O voo do morcego é como as manchas de luz quando olhamos para uma parede branca, uma sombra que não conseguimos fixar, uma sombra fugaz que desliza sempre para fora do ponto onde se fixa o nosso olhar.
Calados, rodeados de escuridão e silêncio, estamos apesar de tudo protegidos. Protege-nos o tecto celestial das copas das árvores, que se fecha em nosso redor como uma campânula, e protege-nos o arco da noite onde se firmam todas as estrelas que não conseguimos imaginar, uma abóbada cintilante sobre a baía.
São dez da noite, e não sabemos, não suspeitamos sequer, o que nos prende, o que nos retém, e, de certo modo, nos junta na condição de estarmos afastados dos outros, e um do outro. Deveríamos recolher ao hotel, ir para os quartos. Um empregado apruma-se à porta, engomado numa camisa de caqui, e, apesar do ar de quem sempre ali esteve e sempre ali estará, sabemos que está só à nossa espera para poder fechar a porta e sentar-se a dormir numa cadeira branca de plástico. Mas nós vamos ficando, ou deixamo-nos ficar, ou vamo-nos deixando ficar, porque na verdade não há razão nenhuma para não estarmos aqui sentados, na base de um monumento ressequido que é já só a ruína de uma memória, rodeados de escuridão e silêncio, tu a fumares cigarros atrás de cigarros.
Eu penso na improvável cadeia de eventos que me trouxe de regresso a este lugar. Já pensei, há pouco, nas casas que reconheci, onde passei longas férias na infância, na fotografia que me tiraste em pose junto à estátua do Gama, e que é uma reconstituição de uma outra fotografia que me tiraram no mesmo sítio há mais, há muito mais, de 20 anos. Pensei também na estranheza que senti por achar o largo fronteiro ao Palácio de São Paulo tão pequeno, demasiado pequeno para nele caberem as minhas recordações, e todos os automóveis que traziam as pessoas aos Sábados à noite para a ponte do molhe, agora que o único automóvel que vimos foi que nos trouxe até a Ilha.
Já pensei nisso tudo, mas agora só penso na imensa, na incomensurável improbabilidade da minha presença neste momento neste lugar. Como, de súbito, me sinto do lado de fora da minha vida, das minhas vidas, da minha vida remota quando passei por aqui incontáveis vezes, e da minha vida actual que decorre tão longe daqui. Penso em que a vida, afinal, tem a precisão de um mecanismo de relógio, apesar de nós, do local onde a habitamos, nunca conseguirmos ver os ponteiros. Penso em como a vida, tão sábia e tão arguta, me trouxe de regresso, respondendo desse modo a um desejo, a uma necessidade, que eu nunca tinha expressado nem de que tinha, julgo eu, chegado a tomar consciência, colmatando uma falha esvaziada que me tornava oco por dentro, e que, apesar de eu nunca ter dado por ela, me parece agora ter sido insuportável.
Penso em que esta primeira noite é também a última, ou em que, ao invés, e que não vai dar ao mesmo, esta última noite será também a primeira. O que me trouxe, também me levará pela manhã. Penso em que não é possível habitarmos um hiato, e, por isso, houve uma suspensão, mas haverá a seguir um retomar. E que, deste modo, estou a viver um momento único, e que cada segundo que passa, fugaz como as asas do morcego, passa também pesado como uma corrente de ferro, largo como a parede de uma fortaleza, longo como uma impossível ponte que prenda uma ilha a um continente.
É nisso tudo que eu penso, enquanto tu continuas fumando em silêncio. Sem saberes que não entras nesta história, apesar de ela só existir por ti, por tua causa, e para ti.
Amanhã de manhã, quando voltarmos a passar por este lugar à procura já da arqueologia de nossa própria passagem, seremos já outros. Tudo já terá retomado o seu sentido, haverá de novo ordem nas coisas e no mundo.
Mas agora, neste preciso momento, nocturno e silencioso, tu estás fumando. E eu vou existindo na lenta combustão do teu cigarro.
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