June 3rd, 2003

rosas

parabéns

Este poema do Victor Matos e Sá, é um daqueles sem os quais a minha vida seria infinitivamente mais pobre. Conheço-o há mais de vinte anos, e mesmo assim estremeço de cada vez que leio os versos iniciais, a primeira estrofe, que me devolve sempre a noção do tamanho exacto que um homem, ou uma mulher, tem.
Hoje, o poema vem à superfície porque a de_light faz anos, e porque o seu rosto, e o seu corpo, por razões que nem sei bem explicar, me devolvem sempre o aconchego de saber que estou vivo e que isso é sempre um milagre.

É preciso que saibam: este rosto
não está à venda. Há quarenta
e cinco anos que o trago apenas
para dar e receber o espanto
do amor e do tempo, do eco e da rosa
e a violenta companhia
insubstituível do mundo.

Os amigos mortos e sepultados
sob este sorriso, também não estão
à venda – é com eles que entro
na força dos versos em que falo
de nós todos. Estes olhos
já leram Platão (entre outros)
já viram chegar a noite
nas grandes cidades, corpos proibidos
homens e mulheres sem paixão
moribundos face a face com o absurdo
de um tempo já maior de quanto há neles

e casais cumpridores que não gastaram nunca
um tostão de amor a mais.

Já todos dormimos em má companhia
(mesmo se nos limitamos a dormir
inteiramente sós – e até por isso)

Meus prósperos e
devotos irmãos atarefados, deixai-me
em paz. Ou então dêem-me um pouco
de tabaco ou mandem-me
de férias um postal (mesmo
que morra). Um póstumo
postal. E sem remorso.
Já que não se morre apenas
de falta de correspondência...