June 1st, 2003

rosas

As Irmãs de Maria Madalena

Eu adoro profundamente a Irlanda. É uma paixão. Acho que é daquelas raras confluências felizes: um milagre de beleza natural, uma cultura forte e enraizada onde o erudito e o popular são margens do mesmo e profícuo lago, e um povo determinado e com sentido de humor. Se fizesse algum sentido a possibilidade de escolhermos uma pátria, eu diria que se fosse irlandês, seria um patriota orgulhoso.
E no entanto a Irlanda é uma história de sofrimento, de pobreza e de opressão. E se a forte ancestralidade da cultura e um sentido céltico do pagão mágico, podem explicar muito da sobrevivência e do sucesso da Irlanda como nação e como pátria, também é verdade que a adversidade não veio, em termos históricos, só de fora, do exterior da ilha; muitas das perplexidades da Irlanda parecem provir de uma espécie de "fractura" interna.
A primeira dessas perplexidades tem a ver com a violência. Não é fácil aceitar que um povo tão amável e hospitaleiro (não há pessoas antipáticas na Irlanda, parece), com um grande sentido da festa, seja capaz de cometer actos de enorme crueldade, de que são vítimas, muitas vezes, os seus próprios conterrâneos. O insucesso histórico do IRA, cujo fundamento me parece inatacável em absoluto, explica-se, estou convencido, pela crueldade das suas acções terroristas que, ao invés de destruturarem o inimigo, o uniam de forma mais coesa sob o manto da solidariedade. Mas se essa crueldade ainda podia ser tolerada quando dirigida para o exterior, para o inimigo inglês, ocupante e opressor, são já incompreensíveis os actos perpetrados entre nacionalistas e unionistas, entre católicos e protestantes, que, a grande maioria das vezes, não passavam (não passam?) de actos de "pura maldade".
Outra das perplexidades que nos causam os irlandeses tem a ver com o catolicismo e a igreja católica. Aparentemente, nesse aspecto, não se poderia dizer que a Irlanda fosse "mais" católica do que Portugal, havendo por isso poucas razões para admiração. Mas a nossa latinidade, a nossa esperteza meridional, uma certa preguiça e languidez, ensinou-nos há muito a conviver, de forma hipócrita é certo, mas apaziguada, com os férreos dogmas morais de uma religião que assenta exclusivamente nas noções de culpa e pecado. Os irlandeses, ao contrário, aliam a rigidez mártir e penitencial do catolicismo a um certo puritanismo protestante e inglês, que tornam a igeja católica na Irlanda uma força social (e política) poderosa porque tem um domínio absoluto sobre a mente, mas também sobre os corpos dos fiéis.
Se parece paradoxal que uma sociedade tão asfixiante consiga ser berço de uma cultura superior, compreende-se melhor que, a par da fome e da miséria, e da opressão inglesa, esse ascendente opressivo do catolicismo esteja na origem do facto de a cultura irlandesa, nomeadamente a literária, ser em parte significativa, uma cultura de exílio, tal como, de resto, o povo irlandês é um povo de diáspora.

Tudo isto a propósito de The Magdalene Sisters, um filme brutal onde Peter Mullan, mais do que denunciar o sistema concentracionário dos conventos de Maria Madalena a que eram condenadas as raparigas sobre as quais recaía o olhar censurador da sociedade (ainda que, como nalguns exemplos que o filme escolhe, muitas vezes nem sequer se tenha entrado na antecâmara do pecado, o que reforça o aspecto castrador do ditame moral), acusa essa espécie de catolicismo puritano e vindicador, que condena em vez de perdoar, que instiga o ódio onde devia proclamar o amor.
Se o olhar de Peter Mullan, do ponto de vista cinematográfico, poderá mostrar algum academismo devedor do realismo britânico (ainda há pouco vimos Mullan como actor num filme de Ken Loach, um dos 'papas' desse "género" de cinema), é, apesar de tudo, um olhar subtil e contido, que nunca hesita em derramar uma profunda ternura em relação às raparigas cujo destino é acompanhado pela narrativa, e recusando, por outro lado, algum histerismo diabolizante que caricaturasse os algozes da história, no caso as freiras e os padres católicos. Desta forma, Peter Mullan consegue produzir um efeito-verdade, raro no cinema hoje em dia, que choca e comove, mas nunca se torna obsceno e excessivo.