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Companhia Violenta
rosas
innersmile
Em 1980 eu tinha 18 anos e entrei para a Faculdade. Um grupo de colegas que vinham já do tempo do liceu, e outros ganhos já na faculdade, formámos uma espécie de tertúlia que se reunia no sótão de um de nós, a beber cerveja, jogar jogos de tabuleiro, discutir ideias, e ler e partilhar poesia. Foi assim, graças a esse grupo de amigos, e sobretudo àquele de entre todos que era o mais esclarecido e "lido", que Companhia Violenta, o livro póstumo de poemas de Victor Matos e Sá, entrou na minha vida. E fê-lo de uma forma incendiada e arrebatadora. A poesia de VMS foi talvez a minha primeira grande paixão, e entrou na minha vida muito antes daqueles poetas sem os quais eu, hoje em dia, já não me percebo muito bem: os Pessoas, Sá-Carneiro, Eugénio, e todos os outros que vieram em seguida, e para ficar. Antes dele, só mesmo o Reinaldo Ferreira, mas esse, como está comigo praticamente desde a infância, é já como uma segunda pele.
E a poesia de VMS, e esse livro maravilhoso que é Companhia Violenta, um volume pequeno editado pela Centelha que se descobre ainda à venda em estantes mais empoeiradas, sempre foi ficando, mesmo quando a boca de cena foi sendo ocupada por outros mais célebres mas não mais fulgurantes. E ler a Companhia Violenta aos 18 ou aos 19 anos foi uma experiência sensorial, talvez ainda mais do que uma experiência intelectual ou emocional. Eram versos, como disse, incendiados, que sorviam a vida aos golos, versos de ser inteiro e completo em cada sílaba, de entrega total e excessiva à vida. Ler Companhia Violenta era um desporto radical antes de terem sido inventados.
Em 1986, comprei, numa Feira do Livro, o meu primeiro exemplar (até aí, limitava-me a transcrever à mão, a copiar, os poemas de exemplares emprestados), e ofereci-o à pessoa por quem estava total e profundamente apaixonado, a F, e que foi uma das grandes paixões da minha vida. Que passados uns dias, mo tornou a oferecer, porque sabia que, agora que me tinha passado pelas mãos, livro tinha ficado colado a elas. Esse exemplar, que ainda guardo e está aqui à minha frente é também o testemunho desse amor: os sublinhados feitos por ela ou por mim, os nomes que demos a alguns poemas (há um que passou a ser 'Canção para Bruxelas', por evocar tão bem o que sentíamos quando a F esteve lá a trabalhar), recados e bilhetes que ela me deu.
Além disso, tem também junto a um poema, um excerto de um poema do Reinaldo Ferreira com que tem evidentes traços de união, e que está escrito a lápis com a letra da minha mãe, e não faço a mínima ideia em que ocasião é que ela leu o Companhia Violenta e lhe acrescentou esse parentesco.
Há 2 ou 3 anos, numa Feira do Livro, comprei uma edição creio que da Campo da Letras, com a reunião da poesia completa do VMS. Logo a seguir, fui ao bar do Gil Vicente a uma sessão de apresentação de um tipo que eu conhecia através da net e que lançava o seu primeiro livro de poemas. Apresentámo-nos, conversámos um pouco, e eu acabei por lhe oferecer o livro do VMS, porque ele não o conhecia (saí da sessão e atravessei a rua em direcção à Feira para repor o livro no meu saco das compras, claro...). É a esse exemplar mais gordo e mais completo, onde os poemas são acompanhados de análise introdutória e de índices auxiliares, que normalmente recorro quando regresso à poesia de VMS. Mas queria por aqui um poema dele, e é insuportável ter de escolher apenas um, e qual será. Então peguei no meu velhinho exemplar de Companhia de Violenta, e caiu ao chão, de lá de dentro, uma folha de papel, com um poema transcrito por uma letra que não é a minha, nem era a minha da altura. É este:

Quando os teus olhos absorvem
todas as cores da minha
mais íntima tristeza,
e compreendes e calas e prometes
um lugar qualquer na tua alma,
e a tua voz demora a regressar
ao neutro compromisso das palavras,

Sei que as tuas mãos ajudariam
a limpar estas lágrimas antigas
por dentro do meu rosto.