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A Colcha de Mármore
rosas
innersmile
O David Leavitt é um dos "meus" escritores, o que não é o mesmo que dizer que é um dos meus escritores favoritos. Mas é daqueles escritores cujos livros já leio há muitos anos, que falam sobre assuntos que me interessam, e que hei-de continuar a ler enquanto fizermos os dois parte da mesma equação!
Foi um dos escritores, juntamente com o Bret Easton Ellis e o Jay McInerney, entre outros, do chamado Brat Pack, uma geração de escritores que em meados dos anos 80 saltou dos bancos da universidade para o estrelato literário, com um grupo de romances que pretendiam retratar, por vezes com mais entusiasmo do que sentido crítico, um certo hedonismo niilista próprio dessa década. De todos, o David Leavitt foi sem dúvida e desde a primeira hora, o que mais me entusiasmou, sobretudo porque escrevia sobre dois temas que me interessavam (e interessam) muito: a homossexualidade (de David Leavitt se poderá dizer, com toda a propriedade, que se trata de um escritor gay: não só, e não tanto, porque todas as suas narrativas sejam protagonizadas por homossexuais, mas sobretudo porque a homossexualidade é sempre o contexto, ou um dos pressupostos, das suas histórias, e a homossexualidade entendida como ela é, ou seja, não um gueto de onde se exclua tudo à volta, mas precisamente como um desvio à norma de um mundo que é predominantemente heterossexual) e a doença, agora sobretudo a sida, na altura principalmente o cancro, o que, à época, vinha preencher uma tremenda necessidade que eu senti de encontrar eco na literatura das coisas por que eu estava a passar.
Como disse, sendo um dos "meus" escritores, daqueles que acompanho com grande fidelidade e, que, por seu lado, também me acompanham a mim, não se pode dizer que eu goste ilimitadamente de todos os seus livros. Acho que ele é muito bom contista, e a maior parte dos seus livros que eu prefiro são as colectâneas de short stories: Danças em Família, A Place I’ve Never Been e, o meu preferido, Arkansas. Dos romances, gostei muito de The Lost Language of Cranes, gostei mais ou menos de Enquanto a Inglaterra Dorme, apanhei seca com The Page Turner e com o Martin Bauman, e, francamente, não me lembro nada do Equal Affections!
Agora estou ler A Colcha de Mármore (publicado pela Teorema, tal como o Martin Bauman e, acho eu, Danças em Família), mais uma colecção de contos, que a avaliar pelos dois já lidos, me parecem muito bons, ao nível do Arkansas, sobretudo do conto que deu título ao livro. Esta noite, aproveitei uma meia-insónia para ler um conto espectacular, que põe, sob o tema da infecção, em paralelo a vida de Lord Alfred Douglas, o Bosie que levou Oscar Wilde à prisão e à infame desgraça, e a de um casal de jovens de São Francisco a braços com o desequilíbrio que resulta do facto de um deles ser seropositivo e o outro seronegativo. Mas o que mais me agradou no conto foi a maneira como o narrador se torna ele próprio personagem da história, não como protagonista, mas como o próprio escritor. Ao mesmo tempo que vai desdobrando, no plano histórico, a vida de Bosie, e no plano da ficção pura, a história do casal gay, o escritor-narrador vai comentando o desenrolar do conto, os pontos de confluência e de fuga, num jogo que é, ele próprio, matéria da ficção. Não sei se estou a ser muito claro, mas é este jogo das escondidas entre a realidade e a ficção, esta espécie de 'com a verdade me enganas', que mais me atrai na escrita.