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entrevista a Eduardo Lourenço na Pública
rosas
innersmile
"Em geral, nós somos o discurso dos outros. Nós, por nós próprios, não temos discurso. Não devemos ter. Mas mesmo que quiséssemos ter também não tinhamos. Agora, cada um, no seu relacionamento com o outro tem uma imagem."

Entrevista notável a Eduardo Lourenço, na Pública, com o bónus de trazer ainda extractos do seu diário. Há pessoas assim, cuja cabeça parece um farol fortíssimo pelo qual nos podemos guiar. EL tem uma lucidez, um rigor, uma exigência, que seria fria se ele não fosse tão afectuoso e tão consciente de que é nas fraquezas, nos tropeções, que nós estamos mais por inteiro.Como nesse trecho da entrevista aí em cima, onde EL expõe, de forma definitiva e cristalina, como só somos através dos outros, só os outros, mais do que sentido, dão identidade à nossa existência.
Não encontrei na página do Público, um link válido com a entrevista. Apetecia-me, por isso, passá-la toda para aqui. Coisas assim, desta clarividência de sol do meio-dia, deviam ser obrigatórias na escola. Para ver se este país se liberta da mentalidade provinciana e mesquinha que o atola. Mas, seja como for, não resisto a citar umas passagens do artigo, e apesar da dificuldade de escolher uns trechos em detrimento de outros.

"Pouco a pouco tornam-se mais jovens do que eu. Custa-me às vezes recordá-los como pais. Esta súbita juventude deles vai mudando por dentro a cor de uma tristeza que supunha e é sem cura. Pressinto o dia em que a corrente se inverterá e que serão eles que se entristeceram por mim. É como se viajássemos em ascensores paralelos, em sentido inverso e nos cruzássemos com uma doçura silenciosa, como nos sonhos. Por um pouco as nossas mãos podiam tocar-se de novo. Os nossos rostos parecem impressos nos vidros foscos da cabine. Nós sabemos que nos olhamos de dois tempos diferentes que se dizem adeus num silêncio que já vinha a caminho antes de eu nascer. Próximos, intocáveis, não jovens, mas mais jovens do que eu, disparado numa carreira parada que os deixa atrás de mim, sempre com quarenta e poucos anos, praticamente sem morte."

Caramba!, que coisa tão pungente e poderosa. EL escreveu isto em 1973, ou seja, quando tinha 50 anos, essa altura da vida em que tudo o que parece existir, é o que veio antes e vai ficando para trás, e o que está pela frente mas não sabemos se ainda virá a chegar. Isto é tão lindo e tão comovente. Há aí palavras, expressões, frases, que são fundas e espelhadas como um lago.

Só mais um bocadinho do diário, este datado de 2000:

"Devemos falar de nós como se estivéssemos mortos. Para ter a sorte de algum dia parecermos vivos. Ao menos por comparação com essa morte que nunca contemplaremos. Se a contemplássemos saberíamos então o que é 'estar morto'. Mas mesmo então não saberíamos o que é ser morto."

A sério, este tipo realmente é superior. E a entrevista, como se vê pelas amostras, é verdadeiramente imperdível.