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catástrofes
rosas
innersmile
A reacção da classe política ao terramoto ‘Pedroso’ está a ser um bocado insensata. Os que falam, vociferam a sua indignação; os outros, calam-se acabrunhados. O poder político sente-se incomodado com o poder judicial, e não disfarça.
A reacção popular à prisão do Carlos Cruz já me parecera completamente despropositada, com doses equilibradas de “eu não disse” e de intenções de fé que pareciam querer transformar o CC num novo Dr. Sousa Martins. Mas nada na romaria popular se assemelha com este histerismo depressivo e deprimido, e sobretudo muito defensivo, da classe política.
Aí num dos blogs da moda, escreve-se qualquer coisa deste género: havendo condenações ou absolvições nos julgamentos, perderá credibilidade a justiça ou o poder político, mas em qualquer caso será uma catástrofe! Como disse?! Só esta asserção, mostra muito do estado de espírito reinante no meio dos que são ou se sentem influentes.
Vamos lá ver. Em primeiro lugar, muito provavelmente haverá condenações e absolvições. Em relação a alguns arguidos provar-se-á em tribunal a sua ligação à rede pedófila e/ou a prática de crimes de abuso sexual de menores, e serão condenados. Em relação a outros, não se provará nem uma coisa nem outra, e serão absolvidos. Tudo certo e nada de novo. É isso que acontece em dezenas ou centenas de julgamentos que acontecem todos os dias. Neste caso, como é provável que venha a acontecer, será uma dupla catástrofe?
No caso de haver sobretudo absolvições, isso provará que a justiça falhou? Pelo contrário, mostrará antes que a justiça funcionou. As instâncias que investigam, e que acusam, fizeram o seu trabalho, com base em indícios que consideraram suficientemente fortes para levar os arguidos a julgamento. Mas, como toda a gente devia saber, e parece star esquecida, é na audiência de julgamento que se produz a prova, é lá que se... julga! E se o juiz considerar que, apesar dos indícios, ou contra eles, ou mesmo por causa deles, os factos não se provaram, absolve. Então, qual é a catástrofe? Em que é que a justiça perdeu credibilidade? A justiça perderia credibilidade se se viesse a provar que foram utilizados meios ilegais na obtenção de prova, ou que aos magistrados moviam razões que não eram de puro apuramento da verdade, ou que fariam mesmo parte de um qualquer complot contra alguém ou algum grupo, ou que estavam a ser vítimas de uma maquinação. Bom, mas mesmo que se provasse que alguma dessas coisas tinha acontecido, a justiça continuaria a funcionar porque elas tinham sido desmascaradas e postas “à mostra”. Quanto ao mais, eu, francamente, não sou nada adepto da teoria da conspiração e acredito que a verdade vem sempre ao de cimo, pelo menos aquela verdade do que é “normal em democracia”.
Mas no caso de haver condenações, só ficará provado que aquelas pessoas, aquelas ali que foram levadas a julgamento e condenadas, cometeram crimes. E criminosos há-os, salvo erro, em todas as profissões, em todas as classes sociais, de todas as raças, de todos os credos. Até ver, e numa análise que pecará por ser empírica e pouco exaustiva, ainda não há grupo humano que seja impermeável à existência, no seu seio, de criminosos. A classe política não perderá credibilidade, se calhar até ganhará mais credibilidade, porque ficamos todos a saber que a classe política não é um couto onde malfeitores vão procurar esconderijo e guarita, porque ficamos a saber que os políticos não se protegem uns aos outros como qualquer máfia, porque ficamos a saber, enfim, que não vivemos numa qualquer sociedade terceiro-mundista onde há intocáveis.

Nada disto invalida que eu continue a achar que todos estes acontecimentos são os sintomas da profunda e grave doença que afecta a nossa sociedade. Mas permito-me ter a esperança de que é precisamente encarando de frente os problemas, discutindo-os, julgando-os quando for caso disso, que nos vamos curar do arsénico e das rendas velhas.