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una giornatta particolare?
rosas
innersmile
Ontem foi um daqueles dias em que a velocidade dos acontecimentos ultrapassou a nossa capacidade de os digerir e racionalizar.

A vitória do F.C. Porto foi muito feliz, num jogo altamente inflamável, emotivo como poucos, mas onde, apesar de tudo, não se praticou um futebol muito bonito. Ainda antes do golo que deu a vitória ao Porto, eu achei que FCP devia erigir uma estátua ao Deco. O homem joga muito e joga muito bonito. E joga leal e humilde, o que é uma coisa que não se vê muito em muitos daqueles jogadores portugueses que cá nasceram. Só tenho uma dúvida: no final, toda a gente estava feliz, a celebrar o facto de ter sido uma “festa do futebol” (porque é que é impossível falar de futebol sem recorrer aos estafados lugares-comuns?), e a elogiar o valor do adversário e o fair-play dos adeptos escoceses; ainda que mal pergunte, se o resultado tivesse sido o contrário, teria sido possível dizer o mesmo dos adeptos portugueses? (e note-se que eu digo “portugueses” e não portistas, porque me parece que o mau-perder é uma característica nacional)

Com a prisão do Paulo Pedroso, aumentou o efeito de choque dos casos de abuso sexual de menores relacionados com uma eventual rede pedófila com epicentro (pelo menos logístico) na Casa Pia. Desta vez, a merda acertou na ventoinha da política, e, curioso, as reacções atingiram o nível da ‘cabeça perdida’. Como se alguém acreditasse que pode haver sordidez moral entre os médicos, os apresentadores de televisão, os advogados, mas não entre os impolutos políticos. A esse nível, achei um pouco patética a reacção de Ferro Rodrigues ao final da tarde, no Rato. Claro que o homem tinha razões para estar confuso, emocionado e transtornado. Apesar da exigência da pose de estado, temos todos direito a emocionarmo-nos quando as coisas atingem a nossa esfera pessoal, a dos nossos familiares ou amigos. Mas FR não devia ignorar os abismos da alma, não devia ignorar a possibilidade de todos termos sótãos, porões e subcaves carregadinhas de monstros e esqueletos, e, por isso, dar o benefício da dúvida à justiça e aos tribunais. Se é verdade que ninguém está acima da justiça (nisto, como no futebol, também começa a ser difícil não recorrer aos chavões), também é verdade que “de perto ninguém é normal”.
Saindo deste círculo penumbroso do crime, dos criminosos e das respectivas psicologias, parecem cada vez mais cristalinos os contextos sociológicos de todo este caso casa-piano. O que tudo isto diz da nossa sociedade, e de toda ela, transversalmente, não pode deixar de provocar uma enorme tristeza e uma grave preocupação. Quo Vadis, Portugal?

A rtp2 tem estado a passar um ciclo de filmes de Maro Ferreri. Já passou o ‘Adeus Macho’, o ‘I Love You’, e ontem passou ‘A Grande Farra’ (pareceu escolhido a dedo, este). Não tenho dado muita atenção aos filmes, mas o que tenho visto, de passagem, faz-me perceber melhor porque é que estes filmes foram tão importantes, nos finais dos anos 70, princípios de 80, na minha formação cinéfila, e cultural. Um cinema transgressor, denso, empenhado, libertário e libertino, provocador e provocante. Dê lá por onde der, a verdade é que já não se fazem filmes assim, com aquela capacidade de questionar tudo e todos. Havia uma crença utópica no futuro tão grande que “nos” permitia pôr em causa todo o presente.

Na segunda-feira, o episódio de Os Sopranos, foi uma obra-prima. Uma sequência longa, que começa quando Tony, nos lençóis e nos braços de uma das suas namoradas, recebe uma chamada a comunicar que o seu cavalo teve de ser abatido por ter ficado ferido num incêndio na estrebaria, e que termina, muitos minutos depois, quando, num plano admirável, daqueles que fazem a baba escorrer do canto da boca, atravessa a sombra vazia do Bada-Bing em horário pós-laboral, e abre a porta da rua para a luz crua , ardente e purificadora, do dia. Pelo meio, um cruel e mortal duelo com Ralph e uma sórdida sequência em que Tony e Chris, com toda a calma, determinação e profissionalismo, se ‘desfazem’ (o uso da expressão é literal!) do cadáver. É por isto que este série é tão boa: porque nos faz ver à evidência (como, aliás, todo o dia de ontem o comprova) que o céu e o inferno são as duas faces da mesma moeda.
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