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Famílias
rosas
innersmile
No passado fim-de-semana, tive uma reunião de família alargada. A ocasião era festiva, o que é sempre mais agradável do que os fatídicos encontros em casamentos e funerais. A família é uma coisa curiosa. É a forma de organização humana mais primária, simples, desenvolvida e complexa que há. E nem o nível de complexidade é menor nas famílias reduzidas, nem, ao invés, as famílias grandes são mais complexas só pelo facto de serem numerosas. Porque a complexidade da organização familiar não está na quantidade dos seus elementos, mas precisamente na complexa cadeia de laços (e nós, diria o Mestre Alçada) que se estabelecem entre os seus elementos (adie-se que tem de haver pelo menos 2 elementos para se considerar a família uma organização). Só temos a aprender em olhar para as famílias, para a maneira como elas se comportam, e para a sua extrema flexibilidade que é, afinal, o verdadeiro truque para a sua longeva sobrevivência.
Estes encontros familiares são sempre ocasiões difíceis e agradáveis. Difíceis porque é impossível lembrarmo-nos de coisas que mantenham interessante a própria circunstância de, pessoas que estão meses, por vezes anos, sem se verem, estarem juntas durante muitas horas num convívio forçado que se quer celebratório e efusivo. E se nos retiramos para um canto à procura de um breve sossego, há sempre alguém que vem ter connosco a perguntar, em tom inimista e confidente, se se passa alguma coisa, que parecemos tristes ou preocupados, e dá sempre uma trabalheira enorme conseguir explicar que não se passa nada, que só queremos estar uns momentos em paz, sem ferir susceptibilidades.
Mas são, também, claro, ocasiões agradáveis. É sempre bom revermos pessoas que conhecemos desde sempre e de quem, tirando uma ou outra excepção, até sentimos simpatia. Sabem-se novidades, reforçam-se afectos, trocam-se informações e contactos úteis, dizem-se piadas e contam-se anedotas (e nunca se percebe bem o que é que esteve na origem do facto de haver alguém que acha que nós gostamos muito de ouvir cinquenta anedotas de seguida), vêem-se fotos dos felizardos que infelizmente não puderam comparecer ao encontro.
E, desde que se tenha um mínimo de paciência para isso, tem-se a oportunidade de ver uma família que por acaso é a nossa, em plena actividade a organização a funcionar na sua perfeição, um motor afinado que gera sinergias e se desfaz daquilo que é desperdício sistémico com uma eficiência notável.
Inevitavelmente, um convívio tão prolongado com elementos da nossa família, acaba sempre por despertar alguns afectos. A verdade é que algumas, talvez mesmo a maior parte, das pessoas que amo são da minha família. Eu sei que dito assim parece uma maldição, mas na realidade, até sabe bem e sempre arredonda alguns dos espinhos que constituem o penoso vale de lágrimas a que chamam vida.