May 19th, 2003

rosas

Green God

Tenho procurado incessante. Porque eu sabia que já te conhecia. Não me era estranha a tua figura. Não me era estranho o teu fulgor. Não me era estranho o "esplendor na relva", na hora em que atravessas uma quimera de sol e ouro, de beleza e abandono.
Finalmente encontrei-te. Estavas, como sempre estiveste, num poema de Eugénio de Andrade:

GREEN GOD

Trazia consigo a graça
das fontes quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens quando desce.

Andava como quem passa
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.



~
[What though the radiance which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind

-William Wordsworth]
rosas

amar assim é uma tristeza

amar assim é uma tristeza. é um céu em arco sobre uma praia deserta. as carcaças de enormes aviões a apodrecer nas pistas de aeroportos abandonados. as fotografias que ficaram perdidas nas casas que habitámos de passagem. os livros esquecidos nas bolsas dos assentos de comboios onde viajámos uma única vez.
uma única viagem. amar assim é uma tristeza. a beleza é impossível. o sol que ilumina os cabelos é sombrio como a memória de uma coisa que nunca aconteceu. amar assim é uma cegueira. um esquecimento.