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A formosinha de Elvas
rosas
innersmile
A Valentim de Carvalho editou um cd com poesia de e dita por Natália Correia. Previsivelmente, o cd chama-se A Defesa do Poeta, e reúne material de gravações em vinil editadas em finais dos anos 60 e inícios de 70, para além da gravação de 1997 de Queixa das Almas Jovens Censuradas, pelo José Mário Branco. O cd tem vários pontos de interesse, desde logo os 6 poemas de Natália ditos por ela própria, entre os quais os conhecidos A Defesa do Poeta e Autogénese. Pessoalmente, descobri, no VIII poema do Cântico do País Emerso, estes quatro admiráveis versos: "Não sou daqui das praias da tristeza/ Do insone jardim dos glaciares/ Levai minha nudez minha beleza/ E colocai-a à sombra dos palmares". Caraças!, estes versos já são meus, e vou ter de os usar em algum lado!
Mas a grande revelação deste disco são os 25 poemas que Natália diz, com acompanhamentos vários, à guitarra, ao piano (por A. V. Almeida) ou apenas com efeitos de sonoplastia, do cancioneiro medieval português, e que a poeta reuniu e adaptou no volume Cantares dos Trovadores Galaico-Portugueses, que a Estampa reeditou há poucos anos. Mais uma das coisas que o ensino do Português mata na escola: as Cantigas de Amigo, de Amor e de Escárnio e Mal-Dizer que somos, ou pelo menos éramos, obrigados a estudar no liceu. Será que nenhum professor se lembrou de usar nas aulas estas lindíssimas adaptações que Natália fez desse cancioneiro? Há pérolas maravilhosas neste livro, que o cd me ajudou agora a re-descobrir ou, na maior parte dos casos, a descobrir pela primeira vez. Mas há um, do jogral Vidal, que é paixão antiga. Já curei uma terrível e poderosa dor de corno ‘ao som’ deste poema, numa daquelas fases em que tudo à nossa volta nos lembra o amor perdido. Não sei se já o pus aqui, mas seja como for, merece aqui estar de novo.

Faz-me por ela morrer
e traz-me desesperado
alguém que dá gosto ver
e de corpo bem talhado,
por quem a morte hei-de ter
como cervo lanceado
que se vai do mundo a perder
da companhia das cervas.

Antes ficasse sandeu
ou me embruxassem com ervas
no dia em que me apareceu
a tal formosinha de Elvas.

Mais a morte me convém,
pois da sensatez me queixo
de quem desejo não tem
de matar o meu desejo
e me parece tão bem
que cada vez que a vejo
me lembra a rosa que vem
saindo por entre as relvas.

Antes ficasse sandeu
ou me embruxassem com ervas
no dia em que me apareceu
a tal formosinha de Elvas.