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sing me something new
rosas
innersmile
"and then I heard you
will you bring back all the joy that I once held
my inner smile
my inner peace
the so-called happiness
cus if you do
then maybe I could love you
then maybe I could know"


Ainda só ouvi uma vez o disco novo do David Fonseca, mas mesmo numa primeira audição há logo duas ou três canções que "ficam". Apesar de não ser nada fundamentalista acerca do assunto, continuo a preferir que os músicos se expressem na sua própria língua. Há uma parte musical nas palavras, um ritmo, uma melodia, cuja arte, acho eu, só conseguimos dominar quando nos exprimimos na nossa própria língua, naquela que conhecemos melhor, naquela em que pensamos e em que sonhamos. Quando ouço o trabalho poético do músicos portugueses em inglês, soa-me sempre um pouco 'phoney'. Ainda ontem estava a ouvir uma canção qualquer do álbum e de repente aquilo fez-me lembrar Belle Chase Hotel; quer dizer, não tem nada a ver, o elemento de associação foi apenas a artificialidade das palavras. O DF até escreve muito bem em inglês, aquilo não é macarrónico nem primário, só que há uma musicalidade qualquer nas palavras que, acho eu, se perde. Outra situação: há uma canção em que ele fala de "national tv"; ora, este conceito não faz muito sentido para quem tem as nossas referências culturais, é um termo marcadamente americano, e que tem a ver com a dicotomia entre as grandes cadeias emissoras que têm segmentos de programação que são transmitidos 'nationwide' por contraposição com as milhares de estações estaduais, regionais e locais, e quando se diz "I was on national TV" pretende-se destacar a importância ou a dimensão do facto. Quando o Sérgio Godinho diz, na Espectáculo, "quando tu me vires na televisão", isso é suficiente para criar a imagem pretendida. A questão, torno a dizer, não está em cantar em português ou em inglês, um tipo pode, e tem o direito de, cantar na língua em que lhe apetece. Os Silence 4 têm a versão do Respect que é muitas vezes mais bonita do que a própria canção original. A Nina Simone cantava com um sotaque francês a rondar o indigente, o Ne Me Quittes Pas, e é arrepiante de belo ouvi-la, atrevo-me mesmo a dizer que a canção, já de si sublime, ganha uma profundidade, um tom lancinante, superior ao cantado pelo Brel. O que eu acho que falha é mesmo ao nível da escrita, é difícil um tipo escrever numa língua que não é a dele e aquilo soar natural. Mas, pronto, é só a minha opinião. E o disco do DF está tão bem feito, as canções representam e traduzem na perfeição boas ideias musicais (a 'Someone that cannot love' é belíssima, entra já para a galeria das grandes canções da música feita em Portugal), quer ao nível da composição que ao nível dos arranjos, que, com toda a sinceridade, é uma pena eu não conseguir o mesmo tipo de adesão imediata e emocional em relação às palavras.

Mas a razão porque pus lá em cima aquela citação, é mesmo porque fala em "inner smile", e eu acho curioso, porque eu fui buscar o nome deste diário, a uma canção, à canção Innersmile, dos Texas. Não tanto por causa da canção em si, mas sobretudo porque, na altura em que eu criei este diário, eu andava verdadeiramente apaixonado pelo video-clip da canção dos Texas, e que acho que é um dos clips mais brilhantes alguma vez feito. Seduzia-me aquele jogo de referências com o Elvis, e agradava-me muito toda a espécie de equívocos e ambiguidades sexuais que resultavam do clip. Jogar com uma imagem forte, em que há uma dose muito grande de verdade, mas há também um certo artifício, e, depois, a própria verdade do artifício, ou seja, "isto" que "eu" apresento como verdade, contém uma mentira, mas o próprio facto de conter uma mentira é em si verdadeiro, uma vez que o objectivo não é enganar ninguém. Ok! ok! o Pessoa diz isto muito bem no famoso 'Autopsicografia', quando escreve que o poeta "chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente". Este conceito de enganar com a verdade atrai-me, e havia disso no clip dos Texas para a canção 'Innersmile'. Além disso, também a escolhi por ser uma expressão muito zen, e eu queria mesmo dar a falsa imagem de que sou um tipo muito equilibrado, em total harmonia com o meu interior e com o universo. Pois!
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