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25th Hour
rosas
innersmile
Aqui há tempos, alguém num comentário ao meu Lj afirmava, mais coisa menos coisa, ser um disparate confinar o cinema de Spike Lee à sua condição de negro. Ora, se houve coisa que sempre marcou o cinema de Lee foi a sua (sua, do cinema) negritude, ao ponto do realizador chegar a defender que apenas os negros seriam capazes de fazer filmes sobre os negros e os seus problemas. O cinema de Lee, que teve uma estreia fulgurante com She’s Gotta Have It e o já clássico Do The Right Thing, sempre pareceu um pouco prisioneiro desse apego étnico, apesar de já se vir notando, nomeadamente no anterior Summer of Sam, que o realizador se preparava para se libertar dele. Só por isso é que este 25th Hour não é uma surpresa total.
De resto estamos perante um filme fora de série, um poema, mais do que uma homenagem, pungente e dorido a uma cidade. A cidade é, claro, a cidade de Lee, Nova Iorque, e o contexto o pós-11 de Setembro. O filme conta as últimas horas de liberdade de um dealer bem sucedido, um genuíno filho da cidade, descendente de irlandeses, ligado aos heróis do 9-11, homem de negócios (escuros) bem sucedido, que domina bem um meio que, seja como for, o ultrapassa: o das mafias do crime organizado ligadas às diferentes etnias que constantemente constróem a cidade. E, apesar do tom cool que Monty usa como uma máscara, a sua prisão é apenas e tão somente, o grau zero de um processo de perda e dissipação. Não é complicado ver nesta história o tom de metáfora que Lee usa para contar a história recente da cidade, particularmente como símbolo da derrocada última do sonho americano, onde dois memoráveis e essenciais monólogos (o de Monty em frente ao espelho e o do pai quando o conduz para a prisão) constituem as duas paredes de um abismo onde a realidade se afunda (btw, se alguém 'arranjar' o argumento do filme, a gerência agradece).
A ajudar ao tom elegíaco do filme, uma inscrição cinéfila: ao convocar a figura de dois actores em especial, Montegomery Clift e Paul Newman, Spike Lee como que adensa o sentimento de perda do seu filme, ao fazer convergir na personagem de Monty Brogan dois actores que se destacaram, no cinema como, no caso de Monty Clift, na vida, por uma certa "malaise", por aquele sentimento que está tão bem descrito na canção de Paul Simon: "In the clearing stands a boxer and a fighter by his trade And he carries the reminder of every glove that laid him down Or cut him till he cried out in his anger and his shame I am leaving, I am leaving But the fighter still remains".
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