May 8th, 2003

rosas

conto: dom luis

DOM LUÍS

Este é o verso de Dom Luís, cavaleiro da Ilha, pássaro leve e ligeiro, a magreza das folhas tem a fraca altura dos seus subalimentados treze anos. Levanta-se primeiro que o sol e sabe sempre os meus passos. Tem lá no insuspeito bolso, e quem diria que aquele trapo ainda tem lugar para algibeiras, um tesouro de missangas de vidro com que me tenta os passos. Canta-me as canções de todos os bandidos, mas dos bandidos meninos. Trata-me pelo nome, porque sabe que o turista personalizado é mais tropeço. Segue-me como se fosse a minha mais luminosa sombra e resiste à minha indiferença porque sabe que ela é toda feita de pose, e também porque tem clara consciência da sua irresistibilidade. Vai falando baixinho, porque sabe que os meus ouvidos são como peixes que mais tarde ou mais cedo vão cair na música marinha das palavras ditas pela sua voz. E lá me segue, a contar-me histórias que eu nem pensava ouvir, mas às tantas lá ouço e pergunto e ele diz-me o que julga que eu quero ouvir. E vai ser assim todo o dia. Vamos, lado a lado quase sempre, mas às vezes em passo descompassado, da ponta da Ilha à Fortaleza.
Este é o seu verso porque sem ele saber eu estive menos só ao longo desse dia. Ele foi-me mais rico. E fez-me mais leve, mais velho, e mais novo. Do confronto com ele, eu saí mais assim. A sua única fraqueza, a única ínfima parte em que eu lhe ganho, é que só eu sei que sou apenas dono de um vasto vazio, porque ele julga que eu tenho o peso do mundo numa fortuna de esferográficas e camisolas. Ele julga que eu carrego promessas e que os meus olhos estão cheios de tudo o que viram, mas nem desconfia que eu sou cego de passado e cego de futuro e que quem tem de seu apenas a pequena ilha de areia debaixo dos pés, tem tudo mas não tem nada.
Quando o sol já se ia, lá para terra, levou-me à despedida. E resumiu-me a conversa do dia, voltando-se para o que ele pensava ser o lado mais frágil e ternurento da minha carteira. E, vá-se lá saber, acertou. Eu voltei ao quarto climatizado que me ilude de conforto, na extrema mais protegida pelo baluarte. E ele lá foi, para o outro lado do dia seguinte, um lado mais negro e sombrio e misterioso. Que a vantagem dele é mesmo a de que ele sabe de mim e eu não sei dele.
Dom Luís, cavaleiro da Ilha, pássaro leve e ligeiro, este é o seu verso.