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Conto
rosas
innersmile
MEMÓRIA DE UM FUTURO PERDIDO

Foi o ano em que Marguerite passou por Lisboa, alojando-se num hotel junto ao Marquês. Lisboa era ainda, nessa altura, uma cidade anacrónica, dividida entre o ar cosmopolita do antigo império que subia da baixa pela avenida, e o ar provinciano das hortas da beira que ainda hoje lhe parecem continuamente afastar a noção de limite. Uma cidade suspensa como uma fotografia muito iluminada, que apenas a fragilidade da memória consegue reconstruir.

Eu tinha perto de 30 anos e esse foi um ano triste. Primeiro, porque eu tinha chegado à conclusão de que não iria conseguir ler todos os livros, nem sequer todos os livros que eu tinha em casa, nem ainda, ao menos, os livros de poesia que se espalhavam pelas mesas, cómodas e estantes. E entristecia-me a possibilidade de haver um poema, uma frase, um verso apenas, que me explicasse, que me reflectisse, que me mostrasse qualquer coisa fundamental que eu nem suspeitava que existisse. Eu ficava parado durante muitas e prolongadas horas, a olhar para as pilhas de livros, a sentir-me doente, ou pelo menos melancólico, e a tentar descobrir qual o livro que conteria o verdadeiro segredo, a chave da minha vida. Muitas vezes desejei ter uma revelação, uma epifania, que iluminasse o meu mistério, mas parece-me que nunca como nesse ano, essa ilusão absurda me encheu de tristeza. Quando vemos, nos filmes, os suspeitos todos alinhados de encontro a uma parede para uma identificação, por um momento acreditamos na possibilidade de assomar à face do verdadeiro assassino a circunstância de ter sido ele o autor do crime, e como tudo se resolveria com uma facilidade satisfatória se isso de facto acontecesse. Era o que eu sentia quando olhava as pilhas de livros, atentamente, pensando em como tudo se resolveria com uma facilidade satisfatória se à capa de um livro subisse uma cintilação de néon, avisando, como um farol, ser aquele o livro que continha a frase, o verso, onde cabia a minha felicidade.

E quando Marguerite passou por Lisboa, e deu uma conferência numa universidade, leituras diversas, sessões de autógrafos ou meros encontros com os seus leitores, eu empenhei-me numa denodada e atenta peregrinação, ouvindo as suas palavras, os comentários dos académicos à sua obra, as perguntas e as dúvidas simples dos leitores comuns, os elogios inflamados dos seus mais fervorosos admiradores, até os artigos de jornal mesquinhos daqueles que não gostavam dos seus livros ou que se sentiam marginalizados do espectáculo um pouco narcísico e muito festivo que foi a sua passagem por Lisboa. Durante algumas semanas, convenci-me de que poderia ser nos seus livros que eu encontraria a resposta porque tanto penava, alimentei-me dessa esperança, que na altura ainda não tinha tomado consciência tratar-se de uma mera ilusão. Como, aliás, antes e depois disso, convenci-me inúmeras vezes que todas as respostas estariam com certeza, com uma certeza que me parecia sempre uma evidência , nos textos de dezenas de outros escritores.

Mas havia problemas específicos com os livros de Marguerite. Por um lado, é muito fácil distrairmo-nos com o efeito simples, luminoso e até um pouco gracioso, de uma frase, e esquecermo-nos do seu significado. Encarei a hipótese, que contribuía para aumentar a minha tristeza, de que poderia eventualmente já ter lido a frase essencial, e não me ter apercebido. Pode acontecer, e, com efeito, acontece muitas vezes, apercebermo-nos, quase sempre demasiado tarde, de que já tivemos na mão, e deixámos escapar, alguma coisa de primordial importância. Outro problema é que parece haver sempre um livro de Marguerite que ainda não lemos, mesmo quando estamos absolutamente convictos de já os ter lido todos, e de já os ter todos a embandeirar, com especial furor, várias prateleiras da nossa biblioteca. E na altura, nesse ano demorado e triste, os recursos para se fazer uma pesquisa razoável eram manifestamente limitados. Não havia Internet, correio electrónico, compras on-line, bases de dados em computadores de inaudita performance, nem, sobretudo, esta hodierna convicção de que a informação é uma espécie de plasma ao alcance de todos, haja como procurá-la. Havia só os vastíssimos ficheiros de pequenos cartões de cor branca e dactilografados em máquinas com teclas falhadas, em inacessíveis bibliotecas públicas ou universitárias, cujos bibliotecários se julgavam formidáveis guardiões de venerandos templos, e que achavam que, se não fossemos renomados e eruditos investigadores, éramos apenas merecedores de um cruel e desprendido desprezo. Mas, mesmo assim, suportei a má-vontade e a arrogância dos funcionários, e corri as bibliotecas de Lisboa consultando os ficheiros integrais, as bibliografias activas e passivas, enfim, todas as referências disponíveis, sobre a obra de Marguerite. Encomendei catálogos, enviei incontáveis notas de franco dentro de envelopes para os mais improváveis endereços, mas a fatalidade permanecia: parecia haver sempre um livro de Marguerite que eu desconhecia, que eu não possuía ou tinha lido, e que se apresentava sempre como a inevitável obra que conteria a palavra que me faltava para ser inteira e completamente feliz.

Havia, porém, outra razão para eu estar tão triste nesse ano em que Marguerite passou por Lisboa: eu tinha tomado a decisão, firme e inabalável, de abandonar as mulheres. Deixá-las de vez, desistir delas, ignorá-las por completo. Fazer a minha vida sem a sua interferência perturbadora e fracturante. Falo, naturalmente, do plano amoroso e sentimental. Eu tinha a suspeita, que na ocasião me parecia fundamentada, de que ou era eu que era absolutamente inábil para o amor, ou então que era o amor que não se sabia ajustar ao meu feitio, que não se adequava à minha maneira de ser. Mais uma vez, eu via isso como uma fatalidade, um anátema que se abatera, de forma singular, sobre mim. Todos em meu redor pareciam padecer de uma felicidade primaveril, e apenas eu me encontrava submerso no limbo opaco e viscoso da impossibilidade amorosa.

Como é compreensível, mesmo que não seja desculpável, culpava disso as mulheres a quem tinha amado, e que agora via, alinhadas como num friso: M, F e L olhavam-me como se estivessem numa tribuna altiva, e o olhar que me lançavam era simultaneamente reprovador e comiserado. Julgo que amei muito essas três mulheres, cada uma à sua maneira. M foi a primeira mulher a quem amei, e amei-a do modo como se amam as primeiras mulheres a quem amamos, aquela com quem aprendemos a difícil arte de navegar nas ondas do amor, e a arte ainda mais difícil e complexa de fazer sexo com alguém a quem se ama. Não havia nada de maternal no amor que M me devotava, apesar de eu muitas vezes pensar que havia qualquer coisa de incestuoso na nossa relação. Apesar de sermos praticamente da mesma idade, ela tinha tido já uma correnteza de amantes, e eu sentia um ciúme fabuloso e fatal desses uruguaios, colombianos, cipriotas e jugoslavos, que a tinham amado, uns mais de passagem do que outros, mas todos o tempo suficiente para deixarem as marcas dos seus corpos nos nossos lençóis. Atormentava-me a penumbra angustiante dessa partilha, e resolvi deixá-la, convencido que o castigo do abandono traria alguma redenção. Poucos meses volvidos, M casava com um professor de liceu, e prosseguiu para ter um par de irresistíveis e adoráveis crianças loiras.

Por seu lado, F era uma flor adulta, madura, e completamente inexperiente, que me tentou ensinar, de forma particularmente violenta, que o sexo dos amantes está na cabeça, e é uma actividade de carácter eminentemente espiritual. Desprezava, mais com indiferença do que com verdadeiro desprezo, os livros e os poetas, os meus livros e os meus poetas, ao ponto de se enganar invariavelmente no nome de um dos meus poemas preferidos. Ao invés, venerava a pintura, e era apaixonada pelos pintores. Pelos grandes mestres universais da pintura, mas também pelos pintores contemporâneos, pelos novos pintores, que ela descobria em obscuras galerias de lojas de rés-do-chão dos bairros residenciais de Lisboa, e com quem travava um conhecimento pessoal que se prolongava em relações complicadas de sedução – repulsa e amor – ódio. Naturalmente, eu destes pintores não sentia a mais leve ponta de ciúme. Eu e F amávamo-nos de uma forma selvagem, quase animal, mas, estou agora convencido, com uma entrega e uma fogosidade que pretendia compensar, em efeitos sonoros, visuais, especiais e sobretudo epidérmicos, o facto de F nunca me ter deixado penetrá-la por não conseguir resolver o mistério da sua virgindade. Foi um amor intenso, que morreu de morte natural, de secura ou exaustão, e quando acabou eu senti-me como um cão batido, a dois passos de poder ser considerado um cão abatido. Tão grande e poderoso que ainda hoje amo o esqueleto desse amor, de que fiquei a ser, para sempre, prisão e sacrário.

L foi a terceira mulher que eu amei e amei-a como se ama a terceira mulher a quem amamos na vida. Há qualquer coisa de único e extraordinário nas "terceiras" mulheres, amam-se mais e simultaneamente menos do que em relação às outras. Mais porque estamos, finalmente, livres da urgência do amor, e podemos entregarmo-nos a ele por inteiro, e dele usufruir todo o esplendor e toda a sabedoria. Mas também menos, porque nos falta a imanência de eternidade, sabendo já nós, nessa altura, e por experiência própria, e repetida, que os amores estão condenados a morrer, tal como a mais vulgar das estrelas. Nunca percebi se fui eu que amei mais L, ou se foi ela que me amou mais a mim. Ou, dito de outro modo, se eu a amei menos do que ela me amou, ou se foi ela que me amou menos do que eu a ela. Mas foi, em todo o caso, um amor adulto, responsável e, sobretudo, cosmopolita. Eu pela primeira vez na vida tinha dinheiro no bolso, e L tinha bastante mais do que eu, e amámo-nos por cima dos veludos, das sedas, nos frascos de perfume e nas canetas de baquelite com aparo em ouro, em bouquets sumptuosos ou luxuriantes, em gravatas italianas, e nas banheiras gigantescas das suites de hotéis de luxo. Ela amava-me através da imagem que tinha do que deveria ser o amante perfeito: charmoso, jovem, rico, e, ainda que seja eu próprio a dizê-lo, belo. Eu amava-a através da ilusão de que poderia amar alguém como ela. Mas o amor acabou, não tanto por causa deste desencontro, mas mais prosaicamente por falta de saídas. A verdade é que não ficou desse amor a mais pequena mágoa, o mais ligeiro rancor, tudo foi bom e feliz enquanto foi, um amor bonito que acabou tão bem como tinha começado, e se hoje não somos amigos é só porque isso não faria qualquer sentido.

E nesse ano triste, com Marguerite de passagem por Lisboa, essas três mulheres olhavam-me, com altivez e distância, um olhar que eu não conseguia bem perceber: se lastimavam a minha decisão de abandonar as mulheres e o seu amor, ou se lastimavam o facto de essa minha decisão já vir tarde. A verdade é que eu me sentia desertado de qualquer certeza. Tinha perto de 30 anos, procurava respostas na literatura e decidira desligar-me do amor das mulheres. Mas Lisboa era ainda uma cidade anacrónica, eventualmente condenada a desaparecer. E Marguerite passava por Lisboa, e alojava-se num hotel junto ao Marquês.
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