May 1st, 2003

rosas

Cet Amour-La

Cet Amour-là / Aquele Amor
O livro foi um esconjuro que Yann Andréa juntou para preencher o insuportável vazio deixado pela morte de Marguerite Duras. Como se apenas através do recurso à palavra escrita, ao texto, fosse possível dar corpo a algo impossível, torná-lo consistente, material, condição essencial para, depois, conseguir abandoná-lo. Era, a esse nível, um livro notável, que nos permitia olhar de frente o que raramente deixa de ser invisível: o obsediante mecanismo do amor absoluto.
O filme de Josée Dayan está simultaneamente aquém e além do livro de Andréa. Aquém porque é impossível repetir o impossível. Ou seja, se o livro de Andréa já nos surgia como uma raridade milagrosa, não seria de esperar que alguém, uma relizadora, uma equipa de argumentistas, actores excepcionais, conseguisse dar testemunho de uma luz que cega quem a vê. Filme portanto falhado à partida, na medida em que não se esperava já que conseguisse reproduzir o encontro impossível que dá substância ao livro.
Mas é justo dizer que, todavia, o filme de Dayan está também para além do livro. Porque, avisadamente, não se limita (não tenta, sequer) a querer mostrar o que não se vê, antes parte de um programa eminentemente cinematográfico: contar uma história que se deixe narrar visualmente, tornando-a num exercício acerca do fascínio do texto, ou mais elementarmente da palavra, filmando aquilo que o cinema tem de mais belo para mostrar: o rosto de uma actriz.
Nesta dimensão, o filme está longe de ser falhado, porque, ao invés, fascina quando mostra aquilo para que a palavra não chega: o fulgor primordial e transtornante de um olhar. Do olhar que está, afinal, na origem da primeira palavra.
Que era necessário o génio de Jeanne Moreau para tornar possível (concreto) um projecto tão arriscado e inseguro, é uma evidência tão grande que só se menciona porque era impossível não falar do que é fundamental.