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o irmão do meio
rosas
innersmile
Comprei finalmente o disco do Sérgio Godinho, O Irmão do Meio. Disco fabuloso. É notável a opção do SG de escolher sempre os caminhos mais improváveis, e acertar sempre! Não há coisas fáceis neste disco, que, mais do que pelas parcerias brilhantes, prima pelos arranjos que são, quase todos, sublimes (e os que não são sublimes, são "apenas" muito bons!).
E depois tem ainda a vantagem de matar saudades de algumas canções incontornáveis do SG, com o bónus de parecer que as estamos a descobrir (e a apaixonarmo-nos) pela primeira vez: a Lisboa Que Amanhece (já te disse, esta canção és tu: a limpidez quase brutal, intocável, pura e cristalina, promissora e intangível, da primeira luz da manhã), a Mudemos de Assunto, a Balada da Rita (sorry lá pessoal, mas é a canção mais bonita do SG do mundo!), a Que Força É Essa.

Na quarta-feira, dia de abertura da feira do livro, fui lá comprar a Obra Poética do Rui Knopfli, edição INCM. Porra!, eu se tivesse uma pinga de vergonha na cara, nunca mais escrevia nada, nem a lista de compras do supermercado. O RK é um dos nomes incontornáveis da poesia de língua portuguesa do século, e brilha lá mesmo ao ciminho, onde está o Pessoa (juro, não exagero), o Belo, o Drummond, o João Cabral de Melo Neto. Pronto, não se livram de levar com um poema do Knopfli, um daqueles que ele escreveu para mim. Chama-se Naturalidade e é assim:

Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no coração uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.


Caramba!, aquela estrofe do meio e este final, dizem tudo o que eu sinto e ando a tentar verbalizar em tanto papel sujo. O poema Ilha Dourada é a fotografia perfeita que a alma guarda da Ilha ("A fortaleza mergulha no mar / os cansados flancos / e sonha com impossíveis / naves moiras / (...) / e faço-te estes versos / de sal e esquecimento."). Só um gajo muito grande faz um poema ('Então, Rui?') que, depois de descrever a sua cidade vista do alto de um barranco, termina com estes versos: "(...) Diacho, que perfil mais bonito, heim? / Então, Rui, que é isso, / não vais agora comover-te?" Caraças, um tipo lê isto e fica logo com os olhos cheios de água.

Ontem, num daqueles momentos que nos parecem infinitamente mais intensos do que o que na verdade são, dei o endereço aqui do meu LJ a alguém que não conheço, ou pelo menos, não conheço pessoalmente, que é única forma de conhecimento que cheira a vida! Fez-me um bocado de impressão, porque senti que estava a partilhar este recesso de intimidade com um estranho. Mas, então, sempre posso dizer como a Blanche DuBois, que "I've always depended on the kindness of strangers". E fi-lo porque de certa forma, dar o LJ a conhecer é a melhor forma de eu me dar a conhecer. Depois, porque acho ("vanitas, omnia vanitas") que este é o meu lado mais favorecido, o meu lado melhor. Finalmente porque pode ser uma forma de prosseguir uma conversa que, para falar com muita franqueza, me parece estar num impasse e não saber muito bem o que fazer para a manter acesa.
Espero que tu te sintas bem por cá, e, já que aí estás, aproveita para conhecer alguns dos meus vizinhos que são os vizinhos mais lindos do mund