?

Log in

No account? Create an account

perdas
rosas
innersmile
Ontem tive a notícia triste de que morreu a Madalena. Apesar de morarmos relativamente perto, era raro vermo-nos, só quando eu ia lá levar ou buscar a Neta, nas raras vezes em que ela cá veio de férias. Mas a Madalena foi das pessoas importantes na minha vida, quando eu estive doente, em Londres. O Medical College de Charlotte Street, onde ela trabalhava e morava, fazia parte do percurso obrigatório (e faz parte integrante da porção mais essencial e pura das minhas memórias londrinas, as daquela fase em que Londres era uma cidade belíssima, estrangeira e diferente), e os biscoitos que ela fazia (nunca mais provei outros tão bons. As ‘raivas’ que vendem na mercearia do Gira são quase tão boas, mas not quite...) eram, muitas vezes, a única coisa que eu comia com gosto. Há uma parte da minha vida ligada fortemente aos amigos que fiz lá, e a Madalena fazia indubitavelmente parte desse grupo de amigos.
E já é o segundo dos meus amigos de Londres a morrer, apesar de a Madalena ter morrido aqui ao pé de mim, onde viveu os últimos dez ou doze anos. Primeiro tinha sido o Mayer. Tive um desgosto grande quando ele morreu, desgosto que se repete agora com a morte da Madalena. Porque essas pessoas que eu conheci em Londres, foram os meus únicos amigos durante um período substancial da minha vida. As únicas pessoas com quem eu saía, com quem ia ao cinema ou aos museus, e que iam constantemente a casa da Neta visitar-nos, e, particularmente visitar-me a mim quando eu não estava internado. E se nunca me passou completamente a sensação, que talvez seja um pouco injusta, de que, com algumas e importantes excepções, a maior parte dos meus amigos "de cá" me abandonou quando eu estive doente (apesar de eu já ter perdoado completamente mesmo àqueles que confessaram que não me visitaram porque lhes fazia "impressão" verem-me doente!, é um daqueles casos de forgiven but not forgoten... e já lá vão vinte anos!), também nunca me passou a sensação, maravilhada e para sempre reconhecida, de que os meus amigos de Londres foram uma das raríssimas coisas luminosas e radiantes que eu tive no período mais sombrio da minha vida.

Hoje foi a comemoração do 30º aniversário aqui do W. Correu tudo bem, felizmente, mesmo aquela parte 'stressante' de meter 400 pessoas num refeitório onde cabem umas 100! Mas foi um aniversário sem brilho e mesmo sem glória. Porque falta empenho e entusiasmo. Há 5 anos, eu estava fora no dia das comemorações, tinha ido há poucas semanas para os States, mas vivi intensamente todas as actividades preparatórias das comemorações. Hoje parecia que nem era bem comigo. Apesar dessa falta de entusiasmo, sinto esta casa como minha, e um dia que tiver de sair daqui para ir trabalhar para outro lado, vou saber que deixo a organização onde mais gozo me deu trabalhar, e onde arranjei amigos e ganhei um respeito que me deixam orgulhosos.